quarta-feira, 12 de março de 2025

𝐎 𝐧𝐨𝐫𝐦𝐚𝐥 𝐧ã𝐨 𝐬𝐞𝐫𝐢𝐚 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐚 𝐯𝐢𝐨𝐥ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐞 𝐚 𝐟𝐚𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐬𝐩𝐞𝐢𝐭𝐨?!

Todos concordamos que sim. Mas a verdade é que os conflitos em jogos da formação não param. São frequentes as contestações dos adultos, sem razão que as justifique. Há protestos porque o árbitro apitou, porque o árbitro não apitou, porque o adversário foi mais impetuoso num lance, porque o treinador não colocou o filho a jogar mais cedo, ou porque o tirou do jogo cedo demais, porque o colocou a jogar numa posição diferente, porque a culpa é sempre do avançado, porque o filho, sendo guarda-redes, nada poderia fazer para evitar o golo sofrido, ou porque, como avançado, não marca sem a ajuda dos colegas, porque a falta era claríssima… e por aí fora.

A agressividade que se manifesta nos gritos, nos insultos e na falta de fairplay tende a aumentar na mesma medida em que cresce a "necessidade" de vencer. No fundo, o que parece importar a muitos destes pais é ganhar, ver o seu filho marcar golos. Trata-se de uma verdadeira batalha pela vitória, ou pela rejeição da derrota, onde muitas vezes o interesse pelos filhos fica em segundo plano. São os próprios pais que, no fundo, sentem que ganham ou perdem, como se estivessem eles próprios dentro de campo. Precisam dessas vitórias como se lhes pertencessem, como se estivessem a disputar um segundo jogo, paralelo, ali mesmo nas bancadas. A questão que se impõe é: quem grita mais alto? quem se faz notar? quem conta a piada mais sarcástica? quem demonstra melhor conhecimento das regras? quem, supostamente, seria um árbitro mais competente? Ou ainda: quem insulta com mais "jeito"? É evidente que, para muitos pais, o jogo dos filhos se resume a ganhar ou perder. O filho, na visão destes adultos, é quase como o único jogador em campo, o centro de tudo o que acontece. E quando não joga, pouco importa o resultado: mesmo que a equipa ganhe, prevalece a ideia de derrota só porque o filho não jogou (ou jogou pouco).

                                
desenho de Paulo Medeiros

Ao mesmo tempo que se proclama – e bem – que a formação deve centrar-se no desenvolvimento da coordenação motora, na aprendizagem e compreensão do jogo, na evolução técnica e tática, no conhecimento das regras e no comportamento ético dentro do campo, a realidade mostra-nos outro lado. O que ouvimos com frequência é uma verdadeira batalha verbal ("são todos uns ladrões", "vai para a barraca", "parte-lhe uma perna", "vai para a tua terra, ó palhaço!") que caracteriza o "jogo" dos pais na bancada. A primeira frase agressiva dá o tom, e daí em diante é um escalar de provocações e ofensas, numa espécie de competição de quem é mais "engraçado" ou mais ofensivo. E porque ninguém se acha merecedor de correção – pois acredita que sabe tudo e que o seu comportamento não precisa de ser revisto –, esta escalada de agressividade só termina (e nem sempre) com o apito final do árbitro. Este é, sem dúvida, o desafio mais difícil de ultrapassar: ajudar estes adultos a reconhecerem a necessidade de mudar a sua postura.

Acredita-se que os pais que assistem a formações sobre ética e integridade são os que menos comportamentos insultuosos e agressivos têm na bancada. Se os adultos fossem estimulados a conhecer opiniões dos praticantes acerca dos seus comportamentos iriam ouvir: "não grites tanto", "deixa-me jogar em paz", "só me envergonhas". Ou seja, a melhor forma de lutar contra a violência e a falta de respeito dos pais no desporto de formação é eles verem-se através dos olhos dos seus filhos e perceberem o péssimo exemplo que lhes estão a dar. Pensem nisso!


terça-feira, 11 de março de 2025

𝐄𝐝𝐮𝐜𝐚𝐫 𝐨 𝐒𝐨𝐧𝐡𝐨: Ética e Envolvimento Parental na Prática Desportiva 📚⚽🏅

O desporto é uma escola de vida, onde se aprendem valores como o respeito, a resiliência e o espírito de equipa. Mas será que todos os intervenientes – pais, treinadores e dirigentes – estão realmente a contribuir para um ambiente saudável e educativo?

"Educar o Sonho" é um livro essencial para quem acredita que o desporto deve ser mais do que apenas competição. Com uma abordagem clara e prática, esta obra analisa o impacto das atitudes dos pais e treinadores no crescimento dos jovens atletas e propõe soluções para um desporto mais ético e equilibrado.
✔ Como incentivar sem pressionar?
✔ Qual o papel dos treinadores na formação humana dos atletas?
✔ Como podem os clubes e dirigentes promover uma cultura desportiva saudável?
Se te preocupas com a educação e o futuro dos jovens no desporto, este livro é para ti. Vamos juntos criar um desporto melhor!

📩 Para mais informações


«Educar o sonho: ética e envolvimento parental na prática desportiva» 
Com prefácios de José Lima (Coordenador do Plano Nacional de Ética Desportiva) e de João Luís Esteves (Doutorado em desporto e ex-jogador profissional de futebol), o livro tem ainda proémios de Júlio Garganta (Centro de Investigação, Formação, Inovação e Intervenção em Desporto da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto), de Duarte Gomes (ex-árbitro internacional e atual comentador de arbitragem) e de Rui Miguel Tovar (jornalista e comentador do programa Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio da RTP). 
As ilustrações são de Miguel Rebelo e Paulo Medeiros.
Revisão de Alda Batista

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Desprezo pela ética e pelo fair-play

         Seja qual for o nível de prática desportiva que se considere, podemos verificar que tem grandes semelhanças com o desporto profissional, já que é necessário preparar e organizar o jogo para a competição. Os atletas são a parte mais visível destas atividades, mas existe alguém que assume o papel central em todo o processo: o treinador. Há que perceber o grande impacto que um treinador tem junto dos seus praticantes para entender que a sua valorização tem sido esquecida.

Na sua grande maioria, os treinadores da formação dão mais valor ao facto de estabelecerem uma relação positiva com os seus atletas do que à sua promoção pessoal. Estes treinadores consideram que, mais importante do que vencer, é aquilo que os jovens aprendem na prática desportiva e o prazer que retiram da atividade. Ao terem estas convicções e os comportamentos correspondentes, a sua interação com os atletas vai‑se pautar pelos valores do desporto e o seu trabalho irá contribuir para melhorar significativamente a qualidade de um ambiente desportivo saudável. No entanto, muitos destes treinadores, jovens ainda, enfrentam grandes obstáculos ao tentarem atingir os objetivos a que se propõem. Na origem destes problemas estão a falta de colaboração dos pais, a interferência de dirigentes, pais e adeptos e a dificuldade em conciliar a sua atividade profissional com o tempo de treino. É igualmente verdade que na formação, mas não só, ainda temos muitos treinadores "voluntários".

Infelizmente, há também um outro tipo de treinadores, os que têm comportamentos desviantes e irresponsáveis. Atualmente, seja qual for o nível de competição desportiva, encontramos exemplos de comportamentos desajustados por parte dos adultos, sejam eles agentes desportivos ou espetadores. É geralmente reconhecido que a forma como os adultos participam no desporto deriva da ligação que eles estabeleceram com o desporto durante a sua juventude. Não há grandes dúvidas acerca dos efeitos a longo prazo que a prática desportiva exerce sobre as crianças e jovens.

Se a cultura desportiva em que estes adultos foram formados assenta na obtenção de resultados imediatos, na hostilidade e na intimidação, eles não irão gostar do jogo. Eles não irão sequer perceber os princípios do jogo porque viveram o desporto num contexto de desprezo pela ética e pelo fair-play. Por isso assistimos demasiadas vezes a cenas lamentáveis envolvendo agentes desportivos e adeptos.

Quando escutamos ou lemos notícias sobre certas personagens, devemos lembrar-nos de que eles são o produto do contexto em que foram gerados e que não tiveram, nem quiseram ter, a capacidade para perceber O jogo. Escolheram o caminho mais fácil.

Ao longo do tempo, investiu-se muito pouco ou mesmo nada no comportamento. Porém, os valores do desporto não nascem de geração espontânea. Precisam de ser trabalhados desde a base e em permanência, antes, durante e depois de cada treino e de cada jogo. Não é de certeza o caminho mais fácil, mas é seguramente o mais gratificante.





terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar...