A gestão do tempo de jogo, as não
convocações e a divisão entre equipas A e B continuam a ser das maiores fontes
de conflito no desporto de formação. Pais, treinadores e dirigentes veem-se
frequentemente envolvidos em tensões que, demasiadas vezes, acontecem na
presença dos jovens atletas. E isso nunca deveria acontecer.
Sabemos que muitos pais não estão
preparados para serem pais de atletas. A entrada de uma criança ou jovem no
desporto altera rotinas familiares, condiciona fins de semana e impõe uma
agenda exigente. Quando a expectativa criada não encontra correspondência no
tempo de jogo ou na convocatória, surgem a frustração, a indignação e, muitas
vezes, o conflito. Um conflito para o qual ninguém foi verdadeiramente educado.
Nem pais, nem clubes.
Sabemos também que muitos
treinadores, árbitros e dirigentes estão em processo de formação e
aprendizagem. Mas estamos a falar de desporto de iniciação. No máximo, de
formação. Não de alta competição, não de carreiras profissionais, não de
resultados que justifiquem comportamentos extremos.
A maioria dos conflitos entre
pais e treinadores diz respeito precisamente ao tempo de jogo ou à não
convocação. Esta é, talvez, uma das situações mais difíceis de gerir para
qualquer treinador. Curiosamente, desculpa-se quase tudo ao treinador do clube
sénior de Lisboa ou do Porto. Mas quando é com o meu filho de 9 anos, é “o fim
do mundo”.
Segue-se o guião conhecido:
telefonemas ao presidente, ao coordenador, ao dirigente, ao presidente da
câmara… confrontos diretos com o treinador, ameaças verbais e, em alguns casos,
agressões físicas. E assim se perde a autoridade do treinador e do clube. Ao
mesmo tempo, passa‑se a mensagem perigosa de que a agressão é uma resposta
aceitável, se não mesmo recomendável, para situações de desagrado: “filho,
quando algo não te agrada, parte para a agressão.” A educação que se
transmite é esta. E depois estranhamos a violência.
Foi assim que, durante anos, se
retirou gradualmente autoridade aos professores nas escolas: pelo confronto
constante, pela desvalorização pública, pela ideia de que o adulto responsável
está sempre errado e os pais sempre certos. Infalíveis. Mesmo quando erram.
Este é, de longe, o tema sobre o
qual mais tenho recebido mensagens de pais, treinadores e dirigentes. Não
existe receita mágica. Mas existe algo que precisa de ser dito com clareza:
assim, não estamos a formar. Assim, estamos a falhar.
No desporto, as crianças e os
jovens estão entregues a adultos responsáveis e devem aprender a lidar com a
frustração, a euforia, a espera e o mérito. Devem aprender a distinguir o que é
jogo do que é agradar à bancada. O que é incentivo do que é incitação à
agressão e à violência.
Passar a culpa para os outros é
sempre o caminho mais fácil. “Eu sei tudo.” “Aquele é burro.” “Eu pago para
jogares.” Não. Paga-se para praticar desporto, não para garantir minutos de
jogo. O dinheiro não compra tudo, muito menos carácter, crescimento e
maturidade.
O jogo é a parte visível do
processo e aquela a que os pais naturalmente dão maior importância. No entanto,
são os treinos que assumem um papel central na formação: são planeados para o
grupo, para a evolução individual e para a dinâmica coletiva. É aí que se
constrói o jogador e, mais importante ainda, a pessoa.
Os pais devem incentivar os filhos à dedicação, à superação e ao compromisso. Devem conhecer o projeto do clube, os seus valores e os recursos humanos e físicos que oferece, para poderem fazer escolhas conscientes.
Como exigir a um treinador que
eduque para o mérito, o respeito e o espírito desportivo, se são os próprios
pais os primeiros a desvalorizar esses princípios? Como bem resume Hernâni
Carvalho: “Estes pais deixam de ser buscadores de sonhos para serem
assassinos de sonhos.”
Comunicar com respeito é sempre a
melhor solução. É assim que se constroem contextos saudáveis, atletas
equilibrados e, quem sabe, pais de atletas verdadeiramente cinco estrelas.


