O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais
depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a
falhar a quem mais devia proteger. (falhar a alguém)
Nunca se investiu, ou gastou, tanto na formação de jogadores
em Portugal e, ainda assim, nunca foi tão evidente o desalinhamento do sistema.
Menos de 2% dos jovens atletas chegam ao futebol profissional. Este número, por
si só, deveria obrigar a uma reflexão séria. Mas, em vez disso, continuamos a
alimentar a ilusão.
Multiplicam-se regulamentos, certificações, competições e
mecanismos de proteção de ativos. Tudo parece mais organizado, mais
profissional, mais seguro. Mas a pergunta essencial permanece: para quem está,
afinal, a funcionar este sistema?
Entre os 9 e os 11 anos, crianças são retiradas dos seus
contextos e colocadas numa espécie de corrida antecipada, onde o destino já
está, na maioria dos casos, traçado. Famílias reorganizam vidas, percorrem
centenas de quilómetros por semana e investem emocional e financeiramente num
sonho que, estatisticamente, tem poucas hipóteses de sobreviver. Antes dos 14
anos, muitos destes jovens já foram descartados.
Não falharam – foram descartados.
E aqui reside uma das maiores contradições: fala-se cada vez
mais em proteger o investimento, mas protege-se o quê e quem? Ao antecipar
decisões, ao concentrar talento cada vez mais cedo, o sistema expõe
precisamente aqueles que deveria resguardar.
O preço não é apenas individual e conjuntural, é coletivo e estrutural.
Ao esvaziar os contextos locais, enfraquecem-se clubes, empobrecem-se
competições regionais e limita-se o desenvolvimento global. Um jogador não se
constrói apenas com treino intensivo; constrói-se com diversidade, com erro,
com competição equilibrada e com identidade. Estamos a eliminar essas variáveis
em nome de uma suposta otimização.
Depois, há o silêncio desconfortável sobre o impacto humano.
Retirar uma criança da sua família, dos amigos e do seu ambiente natural não é
um detalhe logístico, é uma rutura. E quando o processo termina, porque quase
sempre termina, o que fica? Quem assume esse custo?
Os grandes clubes, sustentados pelo seu poder de atração,
não captam apenas talento – captam expectativas. Alimentam narrativas de
sucesso que raramente se concretizam, muitas vezes junto de famílias sem
ferramentas para interpretar a exigência real do percurso. Ao mesmo tempo,
acumulam dezenas e dezenas de atletas nas suas academias, num modelo onde a
probabilidade individual de afirmação é, na prática, residual. Não é formação
personalizada, é concentração massiva.
O resultado é um desequilíbrio evidente: no interior do país,
falta talento e competitividade; nos grandes centros urbanos, sobra quantidade
e escasseiam oportunidades reais de desenvolvimento. E, pelo caminho, muitos
clubes abandonam a sua identidade formadora para competir num mercado de curto
prazo, onde o scouting e a urgência da vitória imediata se sobrepõem a
qualquer lógica sustentável.
Também a competição perdeu o seu propósito. Deveria ser uma
extensão do treino; tornou-se um fator de desgaste. Mais jogos, mais viagens,
menos tempo para treinar, estudar, conviver e simplesmente crescer. Estamos a
formar jogadores ou a consumir infâncias?
E quando se olha para o topo, a narrativa desmorona-se.
Como refere Tarantini: "Apenas 16% dos jogadores chegam
à I Liga, onde permanecem em média 4,7 anos. Cerca de 10% têm experiências no
estrangeiro, apenas 2% atingem a seleção nacional sénior e 95% nunca chegam a
representar um dos principais clubes portugueses".
Arsène Wenger vai ainda mais longe: "Dos
jogadores que assinam contrato profissional entre os 16 e os 20 anos, 67% já
não jogam futebol aos 21".
Ou seja, mesmo entre os escolhidos, a maioria fica pelo
caminho. A exceção é vendida como regra – e isso é, no mínimo, desonesto.
Talvez esteja na altura de inverter a pergunta. Em vez de "quantos
chegam?", devíamos perguntar "quantos ficam pelo caminho – e em que
condições?".
Porque, no fim, há uma verdade que não pode continuar a ser
ignorada: antes do atleta, está o filho. A criança. O cidadão.
E um sistema que se esquece disso não está a formar – está a
falhar.




