segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quando o tempo de jogo rouba tempo à formação

A gestão do tempo de jogo, as não convocações e a divisão entre equipas A e B continuam a ser das maiores fontes de conflito no desporto de formação. Pais, treinadores e dirigentes veem-se frequentemente envolvidos em tensões que, demasiadas vezes, acontecem na presença dos jovens atletas. E isso nunca deveria acontecer.

Sabemos que muitos pais não estão preparados para serem pais de atletas. A entrada de uma criança ou jovem no desporto altera rotinas familiares, condiciona fins de semana e impõe uma agenda exigente. Quando a expectativa criada não encontra correspondência no tempo de jogo ou na convocatória, surgem a frustração, a indignação e, muitas vezes, o conflito. Um conflito para o qual ninguém foi verdadeiramente educado. Nem pais, nem clubes.

Sabemos também que muitos treinadores, árbitros e dirigentes estão em processo de formação e aprendizagem. Mas estamos a falar de desporto de iniciação. No máximo, de formação. Não de alta competição, não de carreiras profissionais, não de resultados que justifiquem comportamentos extremos.

A maioria dos conflitos entre pais e treinadores diz respeito precisamente ao tempo de jogo ou à não convocação. Esta é, talvez, uma das situações mais difíceis de gerir para qualquer treinador. Curiosamente, desculpa-se quase tudo ao treinador do clube sénior de Lisboa ou do Porto. Mas quando é com o meu filho de 9 anos, é “o fim do mundo”.

Segue-se o guião conhecido: telefonemas ao presidente, ao coordenador, ao dirigente, ao presidente da câmara… confrontos diretos com o treinador, ameaças verbais e, em alguns casos, agressões físicas. E assim se perde a autoridade do treinador e do clube. Ao mesmo tempo, passa‑se a mensagem perigosa de que a agressão é uma resposta aceitável, se não mesmo recomendável, para situações de desagrado: “filho, quando algo não te agrada, parte para a agressão.” A educação que se transmite é esta. E depois estranhamos a violência.

Foi assim que, durante anos, se retirou gradualmente autoridade aos professores nas escolas: pelo confronto constante, pela desvalorização pública, pela ideia de que o adulto responsável está sempre errado e os pais sempre certos. Infalíveis. Mesmo quando erram.

Este é, de longe, o tema sobre o qual mais tenho recebido mensagens de pais, treinadores e dirigentes. Não existe receita mágica. Mas existe algo que precisa de ser dito com clareza: assim, não estamos a formar. Assim, estamos a falhar.

No desporto, as crianças e os jovens estão entregues a adultos responsáveis e devem aprender a lidar com a frustração, a euforia, a espera e o mérito. Devem aprender a distinguir o que é jogo do que é agradar à bancada. O que é incentivo do que é incitação à agressão e à violência.

Passar a culpa para os outros é sempre o caminho mais fácil. “Eu sei tudo.” “Aquele é burro.” “Eu pago para jogares.” Não. Paga-se para praticar desporto, não para garantir minutos de jogo. O dinheiro não compra tudo, muito menos carácter, crescimento e maturidade.

O jogo é a parte visível do processo e aquela a que os pais naturalmente dão maior importância. No entanto, são os treinos que assumem um papel central na formação: são planeados para o grupo, para a evolução individual e para a dinâmica coletiva. É aí que se constrói o jogador e, mais importante ainda, a pessoa.


Os pais devem incentivar os filhos à dedicação, à superação e ao compromisso. Devem conhecer o projeto do clube, os seus valores e os recursos humanos e físicos que oferece, para poderem fazer escolhas conscientes.

Como exigir a um treinador que eduque para o mérito, o respeito e o espírito desportivo, se são os próprios pais os primeiros a desvalorizar esses princípios? Como bem resume Hernâni Carvalho: “Estes pais deixam de ser buscadores de sonhos para serem assassinos de sonhos.”

Comunicar com respeito é sempre a melhor solução. É assim que se constroem contextos saudáveis, atletas equilibrados e, quem sabe, pais de atletas verdadeiramente cinco estrelas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Carta de um jovem atleta aos seus pais

Pais, o que estão a fazer?

Não sei bem como vos dizer isto…
Acredito que tudo o que fazem é para o meu bem. Sei que querem o melhor para mim.
Mas, mesmo assim, sinto-me estranho. Incomodado. Às vezes, triste.
Ofereceram-me uma bola quando eu ainda estava a aprender a andar.
Inscreveram-me no clube quando eu ainda nem andava na escola.
E eu adoro.
Gosto de treinar durante a semana, de brincar com os meus colegas e de jogar ao fim de semana, como fazem os mais velhos.
Mas quando vêm aos jogos… não sei.
Parece que deixam de acreditar em mim.
Estão sempre a dizer-me o que fazer e como fazer, como se eu não fosse capaz de pensar, decidir e sentir o jogo.
Pais, eu vou errar.
E é a errar que eu aprendo.
Deixem-me ser feliz. Deixem-me estar concentrado no jogo.
Nós temos um compromisso.
Eu esforço-me em casa, na escola e no desporto.
E vocês?
Fazem tantos sacrifícios para me levarem aos treinos e aos jogos… mas depois não desfrutam.
Não ficam felizes por estarem ali comigo?
Já não gostam de me encorajar?
Já não me dão uma palmada nas costas quando o jogo acaba.
Já não me convidam para ir beber qualquer coisa e conversar.
Vão para a bancada como se todos fossem inimigos.
Insultam árbitros, treinadores, jogadores, outros pais…
Já não é como antes.
Porque mudaram?
Eu continuo a precisar da vossa ajuda para aprender a perder com dignidade e para ganhar confiança para competir.
Mas agora, vocês e outros pais, na ânsia de ganhar a todo o custo, tornam-se mais protagonistas do que nós, que estamos em campo.
Cansam-nos.
Confundem-nos.
Entristecem-nos.
Acho que sofrem… e eu não compreendo bem porquê.
Dizem-me que sou o melhor, que os outros não valem nada ao meu lado, que quem discorda está errado e que só ganhar importa.
Mas o treinador que chamam incompetente é meu amigo.
Foi ele que me ensinou que o jogo também é diversão.
E aquele colega que jogou no meu lugar naquele dia… lembram-se?
Sim, aquele que criticaram durante toda a tarde, dizendo que “não serve para nada”.
Ele é da minha turma.
Na segunda-feira, quando o vi, senti vergonha.
Não quero dececionar-vos.
Mas os vossos gritos e as vossas orientações técnicas estão a sufocar-me.
Às vezes penso que não sou bom o suficiente para vocês.
Vocês, os outros pais… falam tanto e apoiam tão pouco.
Esquecem-se de se divertir connosco.
De confiar.
De simplesmente estar.
Provavelmente não vou ser profissional, nem ganhar milhões como sonham.
Mas, assim, estão a tirar-me o que mais gosto: o prazer de jogar.
Pais, aplaudam a minha equipa… e, se conseguirem, também a adversária.
Eu não jogo sozinho.
O jogo é nosso, do treinador e do árbitro.
O vosso comportamento também nos educa.
Já pensei em deixar de jogar.
Mas não deixo… porque GOSTO MESMO MUITO.
Por favor, não me obriguem a pedir-vos para não virem ver os meus jogos.
Vocês são os meus heróis em tudo o resto.
Queria que também fossem os meus heróis no desporto.
Do vosso filho,
que vos ama muito.





Vitor Santos | Educar o Sonho

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Ética e Desporto Escolar, reflexões necessárias

"O desporto escolar tem o potencial de ser um dos mais poderosos laboratórios de cidadania da escola. Mas isso só acontece quando se assume que jogar vai muito para além do jogo em si. É conviver, negociar, falhar, reparar e aprender. A ética não se ensina num discurso, pratica-se em cada passe, em cada discussão, em cada gesto. Se a escola quiser realmente educar para a cidadania, o desporto escolar não pode ficar de fora desta missão."



 

Quando o tempo de jogo rouba tempo à formação

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