Não queria escrever sobre Cristiano Ronaldo. Não por falta de opinião. Muito menos por falta de interesse pelo tema. Mas porque, nestes assuntos, é muito fácil cair na tentação de reagir antes de pensar.
Só que há momentos em que também não podemos ficar calados. Este
é um deles.
Sou Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto. Passo
boa parte do meu tempo a falar de valores, de comportamentos, de respeito, de
responsabilidade. Falo com atletas, treinadores, pais, dirigentes e jovens. E
seria estranho que, perante um episódio destes, escolhesse fazer de conta que
não vi.
Não quero, por isso, escrever sobre Cristiano Ronaldo
enquanto Cristiano Ronaldo. Quero escrever sobre um atleta. Sobre uma equipa. Sobre
um treinador. E, sobretudo, sobre aquilo que entendemos por responsabilidade
quando fazemos parte de um grupo. Também não quero pegar no teclado e disparar.
Hoje tudo é demasiado instantâneo. A notícia ainda está a
acontecer e já existem dezenas de opiniões. Às vezes, antes de sabermos
exatamente o que aconteceu, já temos quem explique, quem condene, quem absolva
e quem tenha encontrado o culpado.
O ruído na comunicação social também é um sinal dos tempos
em que vivemos. Dezenas, sim, dezenas de opinadores que sabem tudo e que
recorrem vezes demais a frases feitas sobre a sua independência, o seu rigor, a
sua liberdade. Não tenho nada contra a opinião. Pelo contrário. Mas
independência, rigor e liberdade não se dizem. Praticam-se. E depois o público
ajuizará.
Quanto ao episódio em si, há uma coisa que me parece difícil
de contornar: um atleta abandonar a concentração da sua equipa não é um
comportamento aceitável. E digo isto sem precisar de saber tudo o que aconteceu
nos bastidores. Porque posso não conhecer a conversa que houve antes. Posso não
conhecer as razões. Posso não conhecer o estado de espírito de quem tomou
aquela decisão. Mas sei uma coisa: fazer parte de uma equipa implica aceitar
regras e responsabilidades.
E isso vale para todos. Também para os melhores. Talvez seja
precisamente aqui que devemos parar um pouco. Não para discutir se Cristiano
Ronaldo é o melhor jogador português de sempre. Não para discutir quantos golos
marcou. Não para discutir o seu estatuto ou a importância que teve — e continua
a ter — na Seleção.
Tudo isso é outra discussão. A questão que me interessa é
mais simples.
Pode um atleta, seja ele quem for, colocar-se acima das
regras da equipa?
Para mim, não. E isto não significa que um atleta não possa
discordar. Não significa que tenha de aceitar tudo em silêncio. Não significa
que não possa ficar zangado, frustrado ou até sentir-se injustiçado. Claro que
pode. Somos pessoas antes de sermos atletas. Mas é precisamente quando estamos
zangados, frustrados ou magoados que os nossos comportamentos dizem mais sobre
nós.
É por isso que tenho alguma dificuldade em reduzir este
episódio à chamada “gestão emocional”. As emoções existem. Fazem parte do
desporto. Fazem parte da vida.
Mas um atleta de elite também tem responsabilidades. E uma
delas é saber gerir aquilo que sente sem esquecer aquilo que representa.
Depois há outra questão que me parece importante. Os
conflitos entre treinadores e atletas existem. Sempre existiram. Um jogador
pode não concordar com uma decisão do treinador. Pode entender que deveria
jogar mais. Pode não aceitar uma substituição. Pode sentir que foi injustiçado.
Tudo isso é humano. O problema não é
haver conflito. O problema é quando deixamos de saber lidar com o conflito. Todas
estas situações têm solução. Tinham solução. Ou, pelo menos, devemos acreditar
que têm.
Não imagino o que é liderar uma Seleção Nacional. Não sei o
que significa tomar decisões com milhões de pessoas a olhar, com uma
comunicação social permanentemente em cima e com uma responsabilidade que
ultrapassa em muito um simples jogo.
Mas quem aceita liderar uma equipa destas sabe, ou tem de
saber, que liderar pessoas é muito mais do que escolher jogadores. É saber
ouvir. É saber decidir. É saber explicar. É saber gerir egos, expectativas,
frustrações e conflitos. E é também saber que, numa equipa, ninguém pode ser
maior do que o próprio grupo. Nem o treinador. Nem o dirigente. Nem o jogador. Nem
sequer o melhor jogador. Talvez seja
esta a parte mais importante de toda esta história. Porque os mais jovens estão
a olhar para nós. Estão a aprender connosco.
Quando lhes dizemos que devem respeitar o treinador,
respeitar os colegas, aceitar as decisões e cumprir as regras, temos de ser
coerentes quando chegam os grandes nomes, os grandes talentos e os grandes
estatutos.
Caso contrário, estamos a ensinar-lhes que as regras existem
para alguns. E isso é precisamente o contrário daquilo que devemos defender no
desporto. Não quero um desporto onde o talento seja castigado ou diminuído.
Quero um desporto onde o talento seja valorizado. Mas onde
quanto maior for o talento, maior seja também a responsabilidade. Porque o
talento pode ganhar jogos. Pode decidir campeonatos. Pode fazer história. Mas
não substitui o respeito.
E é aqui que, para mim, a ética entra. Não quando tudo corre
bem. Não quando estamos todos de acordo. Não quando é fácil respeitar.
A ética aparece quando estamos zangados. Quando discordamos.
Quando achamos que temos razão. Quando temos poder. Quando temos estatuto. É
nesses momentos que os valores deixam de ser palavras. Passam a ser escolhas. E
talvez seja por isso que este episódio me tenha feito parar para escrever.
Não por ser Cristiano Ronaldo. Mas porque nos obriga a
pensar no desporto que queremos. Um desporto onde o talento pode tudo? Ou um
desporto onde o talento, precisamente porque é tão grande, traz consigo uma
responsabilidade ainda maior?
Eu sei de que lado estou. Porque, no desporto, ninguém
deve estar acima da equipa.
Nem sequer os melhores. E talvez esta seja uma das coisas
mais importantes que podemos ensinar a quem está a começar.


.jpg)



