Se ele não deixa, ela abandona?
Há uma pergunta que não devíamos ter de fazer em pleno século XXI: pode uma jovem abandonar o desporto porque o namorado não permite que continue?
A resposta deveria ser óbvia. Não.
Mas a realidade nem sempre acompanha aquilo que consideramos
adquirido.
Há jovens atletas que deixam de treinar, de competir ou
simplesmente de praticar a modalidade de que gostam porque o namorado não gosta
que estejam naquele ambiente. Porque não aceita que treinem com rapazes. Porque
não gosta do equipamento que usam. Porque não quer que sejam fotografadas.
Porque não gosta que falem com determinado colega. Porque entende que a relação
lhe dá o direito de decidir.
E quando uma jovem começa a abdicar de partes importantes da
sua vida para evitar o conflito numa relação, talvez seja tempo de deixarmos de
chamar a isso apenas “ciúme”.
Ciúme não é amor. Proibição não é proteção. Controlo não é
respeito. O problema é que alguns destes comportamentos continuam a ser
banalizados entre os mais jovens. São apresentados como manifestações de amor,
preocupação ou insegurança. E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser uma
relação de confiança transforma-se numa relação de controlo.
O desporto pode tornar essa realidade ainda mais visível.
Uma atleta está exposta. Está num espaço público, compete,
usa equipamento
desportivo, é fotografada, aparece nas redes sociais e, cada
vez mais, é acompanhada por uma comunicação social que nem sempre olha para
homens e mulheres da mesma forma.
Há atletas que têm denunciado a utilização de fotografias
evasivas, centradas no corpo feminino e não naquilo que a atleta está a fazer.
Uma realidade que levanta uma questão incómoda: porque continuamos, tantas
vezes, a olhar primeiro para o corpo de uma mulher e só depois para a atleta?
No desporto masculino, esta realidade existe de forma muito
diferente.
Não se trata de negar a importância da imagem. Trata-se de
perguntar que imagem estamos a construir e que mensagem transmitimos a quem
está a crescer.
Porque tudo isto educa. Educa quem fotografa. Educa quem
publica. Educa quem comenta. Educa quem partilha. E educa, sobretudo, quem
observa.
Quando uma jovem percebe que o seu corpo é mais valorizado
do que o seu desempenho, estamos a transmitir-lhe uma mensagem. Quando um rapaz
cresce a acreditar que pode determinar a roupa, os amigos, as fotografias ou a
prática desportiva da namorada, também estamos a transmitir-lhe uma mensagem.
E é aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre relações
entre jovens.
Passa a ser uma discussão sobre igualdade, respeito,
liberdade e educação. O desporto tem, neste domínio, uma responsabilidade
enorme.
Porque o desporto pode ser um dos espaços mais poderosos de
aprendizagem social.
No treino e na competição aprendemos a respeitar regras,
adversários, colegas,
treinadores e árbitros. Aprendemos a ganhar e a perder.
Aprendemos a trabalhar em equipa. Aprendemos que o outro merece respeito mesmo
quando está do outro lado.
Mas há uma condição: é preciso que esses valores sejam
trabalhados desde o início.
A ética no desporto não pode aparecer apenas quando existe
um conflito, uma agressão, uma discriminação ou um caso que chega às notícias.
Tem de começar na iniciação. Quando uma criança aprende que
meninos e meninas têm o mesmo direito a jogar. Quando aprende que ninguém deve
ser excluído pela sua origem, cor da pele, género ou condição.
Quando aprende que respeitar o outro não depende de ganhar
ou perder. Quando aprende que ninguém é propriedade de ninguém. Quando aprende
que gostar de alguém não significa controlar essa pessoa. São aprendizagens que
ultrapassam o campo, o pavilhão, a pista ou a piscina. São aprendizagens para a
vida.
Por isso, quando falamos de ética no desporto, estamos
também a falar de igualdade, não discriminação, equidade, inclusão, respeito e
liberdade.
E não podemos exigir aos adultos de amanhã comportamentos
que nunca ensinámos às crianças de hoje.
O desporto feminino tem crescido, conquistado espaço,
reconhecimento e público. As próprias atletas têm ajudado a quebrar barreiras e
preconceitos. O facto de, por exemplo, uma camisola de uma equipa feminina
poder alcançar num leilão um valor
superior ao de uma equipa masculina mostra que existe também
uma crescente valorização do desporto praticado por mulheres.
Mas a verdadeira igualdade não se mede apenas por
audiências, contratos ou pelo valor de uma camisola.
Mede-se pela liberdade de uma menina escolher a modalidade
que quer praticar. Mede-se pela possibilidade de uma atleta competir sem ser
objetificada. Mede-se pelo respeito pela sua imagem e pelo seu corpo. Mede-se
pela igualdade de oportunidades.
E mede-se, também, pela possibilidade de uma jovem manter o
desporto na sua vida sem que alguém lhe diga que, para continuar numa relação,
terá de abandonar aquilo que gosta.
Talvez seja esta uma das grandes responsabilidades de quem
trabalha no desporto de formação. Não estamos apenas a formar atletas. Estamos
a formar pessoas. E cada treino pode ser uma oportunidade para ensinar alguma
coisa que nenhum resultado consegue medir.
Ensinar respeito. Ensinar responsabilidade. Ensinar
liberdade. Ensinar igualdade. Ensinar que ninguém tem o direito de controlar a
vida de outra pessoa em nome do amor.
As crianças também nos educam quando lhes transmitimos os
valores do desporto.
É por isso que acredito na força do desporto na construção
de um mundo melhor.
Não porque o desporto seja perfeito. Não é. Mas porque tem
uma capacidade extraordinária de colocar pessoas diferentes lado a lado, com
objetivos comuns, obrigando-as a aprender a respeitar-se.
E talvez seja precisamente aí que devemos começar. Antes das
grandes competições. Antes dos títulos. Antes dos contratos.
Na infância. Porque se queremos jovens que saibam respeitar
os outros nas suas relações, talvez tenhamos de começar por lhes ensinar, no
desporto, que respeito não é uma palavra bonita.
É uma regra de vida.
E, perante a pergunta “Se ele não deixa, ela abandona?”, a
nossa resposta enquanto
sociedade só pode ser uma:
Não.
Ela não deve abandonar o desporto. Ele é que deve aprender a
respeitar a liberdade dela.
Vítor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
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