terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Carta de um jovem atleta aos seus pais

Pais, o que estão a fazer?

Não sei bem como vos dizer isto…
Acredito que tudo o que fazem é para o meu bem. Sei que querem o melhor para mim.
Mas, mesmo assim, sinto-me estranho. Incomodado. Às vezes, triste.
Ofereceram-me uma bola quando eu ainda estava a aprender a andar.
Inscreveram-me no clube quando eu ainda nem andava na escola.
E eu adoro.
Gosto de treinar durante a semana, de brincar com os meus colegas e de jogar ao fim de semana, como fazem os mais velhos.
Mas quando vêm aos jogos… não sei.
Parece que deixam de acreditar em mim.
Estão sempre a dizer-me o que fazer e como fazer, como se eu não fosse capaz de pensar, decidir e sentir o jogo.
Pais, eu vou errar.
E é a errar que eu aprendo.
Deixem-me ser feliz. Deixem-me estar concentrado no jogo.
Nós temos um compromisso.
Eu esforço-me em casa, na escola e no desporto.
E vocês?
Fazem tantos sacrifícios para me levarem aos treinos e aos jogos… mas depois não desfrutam.
Não ficam felizes por estarem ali comigo?
Já não gostam de me encorajar?
Já não me dão uma palmada nas costas quando o jogo acaba.
Já não me convidam para ir beber qualquer coisa e conversar.
Vão para a bancada como se todos fossem inimigos.
Insultam árbitros, treinadores, jogadores, outros pais…
Já não é como antes.
Porque mudaram?
Eu continuo a precisar da vossa ajuda para aprender a perder com dignidade e para ganhar confiança para competir.
Mas agora, vocês e outros pais, na ânsia de ganhar a todo o custo, tornam-se mais protagonistas do que nós, que estamos em campo.
Cansam-nos.
Confundem-nos.
Entristecem-nos.
Acho que sofrem… e eu não compreendo bem porquê.
Dizem-me que sou o melhor, que os outros não valem nada ao meu lado, que quem discorda está errado e que só ganhar importa.
Mas o treinador que chamam incompetente é meu amigo.
Foi ele que me ensinou que o jogo também é diversão.
E aquele colega que jogou no meu lugar naquele dia… lembram-se?
Sim, aquele que criticaram durante toda a tarde, dizendo que “não serve para nada”.
Ele é da minha turma.
Na segunda-feira, quando o vi, senti vergonha.
Não quero dececionar-vos.
Mas os vossos gritos e as vossas orientações técnicas estão a sufocar-me.
Às vezes penso que não sou bom o suficiente para vocês.
Vocês, os outros pais… falam tanto e apoiam tão pouco.
Esquecem-se de se divertir connosco.
De confiar.
De simplesmente estar.
Provavelmente não vou ser profissional, nem ganhar milhões como sonham.
Mas, assim, estão a tirar-me o que mais gosto: o prazer de jogar.
Pais, aplaudam a minha equipa… e, se conseguirem, também a adversária.
Eu não jogo sozinho.
O jogo é nosso, do treinador e do árbitro.
O vosso comportamento também nos educa.
Já pensei em deixar de jogar.
Mas não deixo… porque GOSTO MESMO MUITO.
Por favor, não me obriguem a pedir-vos para não virem ver os meus jogos.
Vocês são os meus heróis em tudo o resto.
Queria que também fossem os meus heróis no desporto.
Do vosso filho,
que vos ama muito.





Vitor Santos | Educar o Sonho

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Ética e Desporto Escolar, reflexões necessárias

"O desporto escolar tem o potencial de ser um dos mais poderosos laboratórios de cidadania da escola. Mas isso só acontece quando se assume que jogar vai muito para além do jogo em si. É conviver, negociar, falhar, reparar e aprender. A ética não se ensina num discurso, pratica-se em cada passe, em cada discussão, em cada gesto. Se a escola quiser realmente educar para a cidadania, o desporto escolar não pode ficar de fora desta missão."



 

Carta de um jovem atleta aos seus pais

Pais, o que estão a fazer? Não sei bem como vos dizer isto… Acredito que tudo o que fazem é para o meu bem. Sei que querem o melhor para mim...