Tenho onze anos.
E quando entro em campo - seja num pavilhão, numa pista ou num campo ao ar livre - só queria poder jogar.
Gosto de correr, saltar, tentar outra vez, rir com os meus colegas quando alguma coisa não sai bem.
É isso que para mim é o desporto.
Mas às vezes tenho um bocadinho de medo de lhe dizer isto.
Quando grita muito a partir do banco, eu deixo de conseguir pensar.
A minha cabeça fica confusa.
Oiço a sua voz forte a dizer o que devia fazer, o que fiz mal, para onde devia ter ido… e eu bloqueio.
Não é que eu não queira fazer bem.
Quero mesmo.
Mas quando grita assim tão alto, sinto como se já tivesse falhado antes sequer de tentar.
E então começo a ter medo.
Medo de errar.
Medo de falhar.
Medo de que, se não conseguir, fique ainda mais zangado.
E acontece uma coisa estranha:
quanto mais quero acertar, mais tudo me sai ao contrário.
Às vezes começo a pensar que talvez não seja capaz.
Que talvez o desporto não seja para mim.
Que talvez seja melhor desistir.
Uma vez até disse ao meu pai:
“Se praticar desporto é sentir-me assim, então talvez seja melhor fazer outra coisa.”
Mas a verdade é que eu adoro treinar.
Adoro competir.
Adoro fazer parte da equipa.
É por isso que lhe queria dizer isto.
Talvez não se aperceba, mas quando grita dessa forma alguns de nós ficam assustados.
Eu sou um deles.
Quando fala connosco com calma, quando nos encoraja, quando diz “vá, tenta outra vez”, eu sinto-me mais confiante.
Corro mais.
Arrisco mais.
Aprendo mais.
Eu quero aprender.
A sério que quero.
Só preciso de me sentir tranquilo.
Preciso de saber que, se errar, isso faz parte.
Que errar não significa desiludir ninguém.
Porque somos crianças.
E estamos apenas a tentar crescer através do desporto.
Nota do Educar o Sonho
Quantas crianças já pensaram isto - e nunca tiveram coragem de o dizer?
No desporto de formação, o objetivo é ganhar jogos
ou é formar pessoas?
O erro é um problema
ou é o caminho da aprendizagem?
E a forma como comunicamos - no banco, na bancada, no treino -
está a construir confiança
ou medo?
Abrimos o debate.
Treinadores, pais, dirigentes:
que cultura estamos a criar?
Porque educar pelo desporto
é, antes de tudo, educar o sonho.
Vitor Santos | Embaixador do PNED
