segunda-feira, 7 de julho de 2025

Bitoques e Campos da Bola ⚽️🎭

Esta crónica faz parte de um texto de sala para uma peça de teatro em cena. Mais do que uma prática competitiva, o futebol de aldeia ou de bairro era — e ainda é — um espaço de pertença, de vínculos familiares, de códigos de honra, resistência e rituais de celebração da vida.

“Bitoques e Campos da Bola” é uma evocação sensível dessas vivências. Através de um olhar pessoal e nostálgico, convido-vos, neste texto, a mergulhar num tempo em que o jogo era apenas a face mais visível de um encontro mais profundo: o encontro de um povo consigo mesmo.
Esta não é apenas uma memória de bola — é uma memória de gente como eu.
-----------
Raramente — muito raramente — uma ida ao campo da bola, num domingo, se resumia a ver um jogo. Era um ritual. Um pequeno acontecimento que juntava gerações, alimentava laços e renovava uma espécie de fé comunitária que só o futebol de aldeia ainda sabe sustentar.
Mais do que futebol, celebrava-se ali uma pertença. Os clubes, por mais modestos que fossem, assumiam-se como motores sociais: formadores de miúdos e de valores, espaços de inclusão, gestos solidários. Eram lugares onde a autoestima de uma comunidade ganhava pernas — ou melhor, chuteiras — e corria atrás de uma bola como se fosse a última esperança de domingo.
Aquele tempo era, acima de tudo, um tempo de encontro. Nos domingos frios, as fogueiras surgiam aqui e ali, improvisadas com ramos secos e algum saber antigo. No outono, as castanhas assadas circulavam entre mãos calejadas, descascadas em roda, entre conversas pausadas e silêncios cúmplices. O bar, invariavelmente, era ponto de passagem obrigatória. O fumo dos cigarros era denso, cortava-se com as mãos. E embora ali só entrassem homens — os códigos eram outros — trazia-se para as mulheres um sumo ou qualquer outra lembrança discreta. Por trás da rudeza, havia delicadeza.
No bar não se falava de rivais. Bebia-se um copo, trocavam-se piadas, aproveitava-se o intervalo. Nos campos onde o bar era no exterior, um simples corte no bilhete bastava para regressar à bancada na segunda parte. Era uma confiança natural, uma espécie de pacto não escrito entre quem vinha de dentro e de fora.
Recordo bem, em Repeses, como o intervalo também era tempo de ir ao pinhal apanhar míscaros. Já se levava o saco no bolso, e os mais velhos, com sabedoria paciente, mostravam os caminhos e ensinavam a distinguir os bons dos venenosos. Em Vildemoínhos, chegou-se a pendurar uma cortina a esconder o bar, quando a lei proibiu a venda de álcool nos recintos. A polícia fechava os olhos — ou piscava-os — de vez em quando.
À entrada, vendiam-se tremoços, amendoins, às vezes rebuçados. As tortas, essas, eram para levar para casa. Um luxo, quase uma extravagância. Os tempos não eram fáceis. Cada moeda tinha destino.
E depois vieram as bifanas. A corrida ao bar ganhou velocidade. Por vezes, perdia-se o recomeço do jogo só para saborear aquela sandes quente, com molho a pingar e cheiro a vitória — mesmo quando o resultado era adverso.
No Campo 1.º de Maio, no Fontelo, não havia bar. Era o futebol de formação. O ambiente era outro. Mas mesmo ali, havia quem escapasse discretamente ao “Malhado” para não quebrar o hábito.
Os campos da bola eram mais do que lugares de competição. Eram territórios de memória. E curiosamente — ou talvez não — era no bar que essa memória ganhava corpo. Porque, no fundo, era ali que se celebrava a verdadeira diversidade da comunidade: no gesto partilhado, na palavra solta, no copo dividido.
• E por aí? Que memórias guardam dos campos da bola da vossa terra?
...........................................................................
As fotos são da Gisela Figueiredo da apresentação, no passado sábado, em Repeses.










Ficha Artística:
A partir do livro de R.M.Ribeiro “Dos Bitoques e dos Campos de Bola”
Dramaturgia, Encenação e Espaço Cénico: Cristóvão Cunha
Interpretação: José Batista e José Manuel Figueiredo
Design gráfico e Comunicação: Mariana Duarte
Assistência Encenação: Cristina Ferrão
Assistência de Produção: Bárbara Marques
Direção Artística Rituais para o Futuro II – Sónia Barbosa
Consultores na pesquisa de clubes locais e textos: Carlos Eduardo Esteves e Vítor Santos
Consultoria Artística e acompanhamento ensaios: Palco de Argumentos
Projeto financiado pelo Eixo Cultura – Município de Viseu
Apoios Rituais para o Futuro II: Núcleo de Animação Cultural de Oliveirinha, Junta de Freguesia de Repeses e São Salvador, Junta de Freguesia de Silgueiros, Junta de freguesia de Bodiosa, Teatro Regional da Serra de Montemuro, Istituto Italiano di Cultura, Embaixada d’Italia a Lisbonna, Cometa Off – Roma, Cinema Teatro Fellini – Latina, Instituto do Emprego e Formação Profissional, União Europeia – Fundo Social Europeu, Instituto Politécnico de Viseu – Escola Superior de Educação, Jornal do Centro, Associação Recretiva e Cultural de Santarinho, Atlético Clube de Travanca de Bodiosa, Clube de Futebol de Repeses, Lusitano, Futebol Clube de Vil de Moinhos, GCRS – Silgueiros, Contraponto.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

O desporto merece mais do que esta hipocrisia coletiva

Os casos de violência no desporto persistem e são, cada vez mais, o espelho da sociedade em que nos tornámos. É grave, e devíamos preocupar-nos. Vários casos como os que se têm repetido deveriam obrigar quem de direito a refletir seriamente e a agir com firmeza. Mas continuamos a fingir que não é connosco.

Não é um exclusivo português, é verdade. Mas é em Portugal que vivemos e é aqui que devemos intervir. Já o escrevi antes: nada, absolutamente nada, justifica a violência – e só nos indignamos quando ela nos toca diretamente.
A sucessão de episódios é clara. O ambiente tóxico em muitos espaços desportivos tornou-se banal. No desporto de formação, onde o ego já ocupa demasiado espaço, há situações que exigem a presença das autoridades para proteger crianças e jovens.
É isto que está em causa.

Há ainda demasiados profissionais que repetem comportamentos inaceitáveis – e que continuam impunes. Cabe aos clubes e às entidades reguladoras penalizar quem insiste em manchar o jogo com atitudes vergonhosas. A isto juntam-se adeptos que invadem os campos, confrontam árbitros ou atletas e, por vezes, cometem verdadeiros crimes, aos olhos da lei e da ética desportiva. Ainda assim, estas atitudes são frequentemente romantizadas, como se fossem sinal de paixão pelo clube. Não são.
São atos de descontrolo, de incitamento ao ódio, de falta de civismo e, pior ainda, de um exemplo tóxico que se tolera e, em certos casos, até se aplaude.

É inadmissível ver atletas a pisarem adversários, a encostarem a cabeça aos árbitros, a simularem faltas ou a provocarem sistematicamente. Todos podemos ter um mau momento. Mas quando o comportamento se repete, deixa de ser um acaso – passa a ser um padrão. E isso não se pode aceitar.



As redes sociais, longe de serem um espaço de reflexão ou debate, tornaram-se amplificadores da violência e do ruído. Dão palco a quem não gosta verdadeiramente de futebol – e até a quem não percebe nada de desporto. Promovem o extremismo, o insulto, a intolerância. O que se publica nas redes ou se discute em programas de entretenimento com o futebol como pano de fundo não tem credibilidade. E muitos dos protagonistas desses espaços nem sequer aparecem quando o erro os favorece.
O erro faz parte do jogo. Sempre fez e sempre fará. Por muito que custe aceitar determinados lances ou decisões, não é com escândalo nem com histeria que se melhora o desporto. É com trabalho. É com cultura desportiva. É com ética – ou seja, com respeito pelo jogo e pelos seus valores.

De pouco serve indignarmo-nos quando perdemos e celebrarmos sem pudor quando ganhamos sem mérito. O desporto merece mais do que esta hipocrisia coletiva.


#educarosonho #respeito #valores #ética #amizade


 

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Bitoques e campos da bola

 Raramente — muito raramente — um domingo no campo da bola se resumia a ver um jogo.

Aquilo era mais. Muito mais.

Era ritual. Era encontro. Era herança.

Juntavam-se gerações…

O avô, o pai, o neto — todos lados a lado, na bancada improvisada, no monte de terra, no

penedo!

Mais do que futebol, era identidade.

Mais do que golos, era pertença.

Os clubes… ah, os clubes!

Não eram só camisolas, não eram só emblemas.

Eram motores de transformação —

formadores de gente,

inclusivos, solidários,

capazes de levantar a autoestima de uma terra inteira com um golo aos 89.

Ali respirava-se a alma de um povo.

Um povo que encontrava naquele momento — naquele domingo frio, ou soalheiro —

uma razão para sorrir, para vibrar, para dizer: esta é a minha gente!

Nos dias de geada, acendiam-se fogueiras.

À volta delas, castanhas a estalar e mãos a aquecer.

O bar? Ah, o bar era ponto de encontro —

fumo cerrado, homens de copo na mão, histórias contadas sem pressa.

As mulheres? Ficavam cá fora. Nos carros a fazer renda!

Trazia-se-lhes um sumo, talvez, mas aquele espaço... era deles.

Um reduto rude, sim.

Mas com uma generosidade que morava por baixo da calça de cotim e do boné de feltro.

Não havia rivalidades no bar.

Ali bebia-se. Conversava-se.

E colaborava-se para que o intervalo durasse o tempo suficiente.

Nalguns campos, o bilhete era cortado à saída e... voltava a servir para a segunda parte.

Não era desonestidade — era confiança.

E confiança havia, fosse-se da casa ou de fora.

Em Repeses, o intervalo dava para tudo — até para ir ao pinhal apanhar míscaros.

Levava-se o saco no bolso.

Os mais velhos guiavam os passos e apontavam os comestíveis.

Em Vildemoínhos, com a proibição da venda do álcool nos campos, montou-se uma cortina a

esconder o bar.

A polícia fingia que não via… às vezes.

À entrada, vendiam-se tremoços e amendoins.

As tortas?! Eram para levar para casa — luxo de tempos apertados.

E depois vieram as bifanas!

A correria ao bar ganhou outra velocidade.

Perdia-se o início da segunda parte, sim…

mas ganhava-se aquele sabor quente e gorduroso que sabia a festa.

O Campo 1.º de Maio, no Fontelo, não tinha bar.

Era para os miúdos, para os que ainda sonhavam.

Mas mesmo aí… havia quem escapasse ao “Malhado” para manter viva a tradição.

Nos campos da bola…

celebrava-se a diversidade.


E era no bar — imagine-se —

que essa celebração mais se via.


Vitor Santos

segunda-feira, 12 de maio de 2025

CLUBES DE VISEU

CLUBES DE VISEU
Cubes do conselho de Viseu que estão e/ou foram filiados na Associação de Futebol de Viseu

- Nome e data de fundação


ACADÉMICO VISEU F C (2006)
ACADÉMICO VISEU F C SAD (2013?)
ACD CASA BENFICA VISEU (2003)
ASDREQ-ASS SOCIAL DESP REC EDUC QUINTELA ORGENS (2001)
ASS SOLIDARIEDADE SOCIAL REC DESP VILA CHÃ SÁ (1987)
ATLETICO CLUBE TRAVANCA (1942)
CENTRO SOCIAL CULTURAL RECREATIVO E DESPORTIVO LEÕES DA BEIRA DE RIO DE LOBA (1995)
CLUBE FUTEBOL OS REPESENSES (1928)
CLUBE FUTEBOL VIRIATOS (2005)
DINAMO CLUBE ESTACAO (1970)
FUTEBOL CLUBE DE RANHADOS (1963)
GRUPO DESPORTIVO CULTURAL RECREATIVO E SOCIAL VILA SILGUEIROS (2002)
LUSITANO FUTEBOL CLUBE VILDEMOINHOS (1916)
SPORT VISEU E BENFICA (1924)
VISEU 2001 ADSC (2001)
VISEU UNITED FOOTBALL CLUB (2010)
-----------------------------------------------
ACUDES - ASSOCIAÇÃO CULTURAL DESPORTIVA E SOCIAL SERNADENSE (1986)
ASORCA - ASSOCIAÇÃO SOCIAL RECREATIVA E CULTURAL DE CABRIL (1994)
ASSOCIAÇÃO ACADÉMICA DE VISEU (1982)
ASSOCIAÇÃO CULTURAL RECREATIVA DESPORTIVA E SOCIAL DE CÔTA (1998)
ASSOCIAÇÃO CULTURAL E RECREATIVA PASSILGUEIRENSE (1988)
ASSOCIAÇÃO CULTURAL RECREATIVA E SOCIAL DE PASCOAL (1999)
ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA E CULTURAL DE SÃO JOÃO DE LOUROSA (1980)
ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA E RECREATIVA CULTURAL "OS POMBOS PRETOS" (2003)
ASSOCIAÇÃO DE ESTUDANTES DO INSTITUTO PIAGET (2001)
ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL DE SALÃO DE VISEU - CULTURAL DESPORTIVA RECREATIVA E SOCIAL (1999)
ASSOCIAÇÃO RECREATIVA E CULTURAL DE BARBEITA (1982)
ASSOCIAÇÃO RECREATIVA E DESPORTIVA OS POVOENSES (1996)
ASSOCIAÇÃO SOCIAL CULTURAL DESPORTIVA DE LUSTOSA (1992)
ASSOCIAÇÃO DE SOLIDARIEDADE SOCIAL RECREATIVA E DESPORTIVA DA FREGUESIA DE FARMINHÃO (1985)
ATLÉTICO FUTSAL CLUBE DE VISEU (2002)
BALSA NOVA - ASSOCIAÇÃO SOCIAL CULTURAL DESPORTIVA E RECREATIVA (1989)
CENTRO CULTURAL DO CAMPO (1981)
CENTRO DESPORTIVO RECREATIVO E CULTURAL DOS BAIRROS UNIDOS DA BALSA (1979)
CLUBE ACADÉMICO DE FUTEBOL (1917)
CLUBE ACADÉMICO DE FUTEBOL - FUTEBOL SAD (2002)
CLUBE ATLÉTICO DE FUTEBOL (1942)
CLUBE DESPORTIVO DA BALSA (1929)
CLUBE DESPORTIVO E RECREATIVO TRAVASSOENSE (1975)
CLUBE DE FUTEBOL "OS BODIOSENSES" (1943)
GRUPO CULTURAL RECREATIVO E FUTEBOL CLUBE DO PORTO E VISEU (1926)
FUTEBOL CLUBE DE VISEU (1932)
DESPORTIVO DE BRITAMONTES (2000)
GRUPO DESPORTIVO BRIOSA PEXTRAFIL (1963)
GRUPO DESPORTIVO DE ABRAVESES (1962)
GRUPO DESPORTIVO DE CALDE (1984)
GRUPO DESPORTIVO CULTURAL E RECREATIVO DE PARADINHA (1977)
GRUPO DESPORTIVO CULTURAL E RECREATIVO DE SILGUEIROS (1974)
GRUPO DESPORTIVO E CULTURAL DA SOÍMA (1984)
GRUPO DESPORTIVO DE FAÍL (1975)
GRUPO DESPORTIVO DE FARMINHÃO (1974)
GRUPO DESPORTIVO JUVENTUDE DE LOUROSA DE BAIXO (1988)
GRUPO DESPORTIVO LEÕES DA BEIRA (1951)
GRUPO DESPORTIVO E RECREATIVO DE MUNDÃO (1981)
GRUPO RECRETIVO CULTURAL E DESPORTIVO DE VILA NOVA DE CAMPO (1982)
GRUPO UNIÃO DE FUTEBOL (1911)
OPERÁRIO FUTEBOL CLUBE (1945)
RANCHO FOLCLÓRICO "AS COSTUREIRINHAS DE CAVERNÃES" (1976)
SPORT LISBOA E TRAVASSÓS (1941)
SPORT RIBEIRA VIRIATO (1911)
SPORTING CLUBE DE RANHADOS (1928)
TRIUNFO FUTEBOL CLUBE DE FIGUEIRÓ (1929)
UNIÃO DESPORTIVA LOUROSENSE DA FREGUESIA DE SÃO JOÃO DE LOUROSA (1992)
UNIÃO FUTEBOL CLUBE DE LUSTOSA (1975)
UNIÃO OPERÁRIA DE SÃO MARTINHO (1971)
VISEU FUTEBOL CLUBE (1990)
VITÓRIA FUTEBOL CLUBE DE ABRAVESES (1926)


A imagem é da camisola dos Olímpicos da Sé (clube que participava nos torneios da Direção Geral dos Desportos)

Olímpicos da Sé 


 

 

Fonte: Futebol de Viseu (Carlos Costa)  
           Página da AFV 

                                                                                                               12 de maio de 2025

Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar...