quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Carta aos pais que vão ver os jogos dos seus filhos

 Queridos pais,


antes de mais, deixo-vos os parabéns: estão presentes, acompanham os vossos meninos, as vossas meninas. Estão lá. Que bonito é amar assim.
Quando eu era criança, era eu que estava lá em campo e tinha os meus pais na bancada em todos os jogos. Todos. Fosse onde fosse. Era tão feliz sempre que entrava e os via lá. Sentia-me amado, seguro, apaixonado por quem estava apaixonado por mim. Todas as crianças são apaixonadas pelos pais que as amam. Que emocionante é ser o filho dos nossos pais.
Mas não esqueçam: os vossos filhos não precisam que gritem. Não precisam que dêem instruções da bancada, não precisam que critiquem o treinador. Precisam que estejam lá. Presentes. Precisam que sejam na bancada o que precisam que sejam na vida: pais. É essa a vossa função. Não é coisa pouca.
Educar é sempre pelo exemplo.
Não há outra maneira. Se uma criança vê o pai levantar-se e a insultar um árbitro, aprenderá que a agressividade é um caminho. Se ouve a mãe a criticar o treinador, concluirá que a autoridade é algo que pode ser colocado em causa. O futebol infantil não tem de ser sobre táticas, resultados; tem de ser sobre aprender a estar em grupo, a perder sem perder-se. Não olhem para os vossos filhos como olham para o Cristiano Ronaldo. Olhem para eles como olham para quem amam a divertir-se. Eles estão ali para brincar com uma bola, para rir, para viver; não estão ali para garantir o sustento da família daqui a vinte anos.
Uma bancada de um jogo de crianças não pode ser um púlpito de raiva; tem de ser uma fábrica de empatia.
Ali, o jogo não vos pertence; pertence aos vossos filhos. Um jogo de crianças é uma metáfora da vida: é correr, tentar, falhar, rir, cair, levantar-se, voltar a cair, voltar a rir, voltar a tentar. A melhor herança que podem dar é mostrar-lhes como se lida com isso com dignidade.
Silêncio pode ser amor. Um aplauso pode ser tudo. Um abraço depois do jogo vale mais do que qualquer instrução gritada. Era isso o que eu tinha do meu pai, da minha mãe, sempre que saía do jogo. O espaço para o abraço mesmo depois da derrota, mesmo depois do jogo mau.
Sejam pais. O futebol agradece. A vida, e o futuro, deles agradece ainda mais.

Pedro Chagas Freitas 

Triângulo da formação desportiva: pai-treinador-atleta

 Os pais têm uma influência determinante nas experiências desportivas das crianças e jovens. A qualidade do ambiente familiar, as crenças, valores e expectativas parentais moldam diretamente a motivação, o prazer, a autoestima e até a continuidade da prática desportiva dos filhos.

Influência parental: Pode ser positiva (apoio, incentivo, valorização) ou negativa (pressão, crítica, comportamentos agressivos). A primeira gera prazer, confiança e compromisso; a segunda leva à frustração, desmotivação e abandono.
Papéis fundamentais dos pais:
Gerar oportunidades – inscrição em clubes, apoio financeiro e logístico.
Interpretar experiências – ajudar os filhos a avaliar o desempenho de forma equilibrada.
Ser modelos positivos – os filhos tendem a imitar hábitos dos pais, inclusive a prática desportiva.
Benefícios da prática desportiva:
Pessoais: autoestima, responsabilidade, fair-play, autodisciplina.
Sociais: amizades, cooperação, respeito pela autoridade, envolvimento escolar.
Físicos: saúde, bem-estar, desenvolvimento de capacidades motoras.
Envolvimento parental: Pode ser analisado pela qualidade e quantidade da participação, tanto em casa (conversas, expectativas, apoio emocional) como no clube (logística, interação com treinadores e outros pais).
Papel dos treinadores: Devem colaborar com os pais e estar atentos ao tipo de feedback que estes transmitem, pois isso influencia motivação e desempenho. Feedback positivo e adequado fortalece a motivação; críticas excessivas prejudicam o processo.
Em suma: O impacto dos pais é inevitável – pode ser um motor de motivação e prazer ou, se mal gerido, a principal causa de frustração e abandono do desporto.

Valores e ética no desporto de formação

No desporto de formação nem tudo se mede em pontos, golos ou troféus. O que realmente fica são os valores aprendidos em cada treino e em cada competição: o respeito pelo adversário, a humildade quando se vence, a coragem quando se perde e a ética em todas as decisões.

Quando uma criança ou jovem entra em campo ou no pavilhão, não está apenas a fortalecer o corpo. Está a construir carácter, a aprender a lidar com emoções, a partilhar conquistas e a crescer com derrotas. Está, sobretudo, a aprender a ser pessoa.
O verdadeiro triunfo não é o peso das medalhas ao peito, mas a capacidade de agir com honestidade, de aplaudir o colega que marcou, de incentivar aquele que falhou e até de reconhecer o mérito do adversário. É esta ética silenciosa, muitas vezes invisível ao olhar, que forma cidadãos melhores, solidários e íntegros.
Mais do que resultados imediatos, o que devemos transmitir aos nossos filhos e atletas é que os valores e a ética são património para a vida. A empatia, o trabalho em equipa e a responsabilidade são os verdadeiros alicerces de uma vitória que nunca se apaga: a vitória de se ser um ser humano completo.
Porque um bom atleta pode brilhar numa competição, mas uma boa pessoa brilha para a vida inteira.






Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar...