O regresso a casa é um pesadelo para muitas crianças e jovens atletas
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
sexta-feira, 15 de novembro de 2019
Não é fácil ser treinador
A comunicação social tem noticiado, e as redes sociais
reproduzido e amplificado, casos de treinadores de formação que têm tido
comportamentos intoleráveis, ou mesmo criminosos em alguns casos. Estes casos nada
têm a ver com a atividade de quem a exerce, mas sim com a falta de caráter e a má
formação do indivíduo.
Servem estas notícias para refletir sobre o papel do
treinador, de quem o contrata e porquê. Se o treinador não tem comportamentos
adequados, são os clubes os grandes responsáveis, pois não são exigentes na sua
escolha. O perfil do treinador não é considerado importante, quando o devia
ser. Não chega ter formação técnica e académica para se ser formador. Até
quando se vão permitir desvios comportamentais éticos e desportivos em troca de
vitória efémera e, quase sempre, utilizada como vaidade pessoal?
Para que serve ter conhecimentos de teoria e metodologia de
treino, de fisiologia do esforço quando não se tem perfil para lidar com
crianças e jovens?! O treinador é responsável pelo equilíbrio no
desenvolvimento físico, mental e espiritual dos atletas, tendo em conta que
estes são os fatores fundamentais de uma perspetiva de vida equilibrada.
A falta de recursos financeiros não serve de justificação
para contratar o treinador barato ou mesmo voluntário. Os custos destas opções
são enormes. É preciso ter noção de que, de uma forma indireta, os treinadores
são das pessoas mais influentes na orientação pessoal e educativa dos jovens
com quem lidam. São-no, quer tenham ou não consciência dessa ação no sentido positivo
ou negativo. Os testemunhos dos atletas confirmam a preponderância do papel do
treinador que para a maioria das crianças e adolescentes é uma das pessoas com
mais importante significado pessoal. É notável a forma como os atletas
depositam a sua confiança nesta pessoa, com o propósito de atingirem os seus
objetivos pessoais.
O treinador de formação tem de ser coerente e justo. O
impacto do treinador é de tal modo importante que a sua atitude e comportamento
pode ter consequências negativas ao nível do auto-conceito ou auto-estima, de
forma tão intensa como, no sentido positivo, é determinante o bom treinador!
A entrada da criança
na prática desportiva é determinada por motivações banais como a influência dos
pais ou por influência de um amigo/vizinho. Nesta etapa é para a criança se
divertir, ter experiências no desporto e entusiasmar-se com os desafios que a
modalidade proporciona. Aqui, os treinadores devem ser atenciosos, alegres,
centrados no processo e não no produto, o que significa que não atribuem ao
resultado do jogo o objetivo essencial.
A principal função de um treinador da formação é potenciar o
atleta e não vencer mais vezes. Este desempenho tem de ser enquadrado na
filosofia do clube e coordenado por quem tem essa responsabilidade para que atletas
e familiares percebam desde início as tomadas de decisões.
A necessidade de demonstrar cada vez mais cedo resultados
desportivos incita muitos treinadores a acelerar o processo de formação dos
seus atletas, o que, mais tarde, origina barreiras de rendimento muito difíceis
de superar e que normalmente estão associadas ao abandono precoce da prática
desportiva.
Ser bom treinador não é algo com que se nasça, nem é algo
que resulte de anos de experiência. Os treinadores devem refletir e aprender as
lições na sua própria vivência desportiva, para serem cada vez melhores.
A árvore não faz a floresta. É verdade. Maus profissionais
existem em todas as atividades.
sábado, 21 de setembro de 2019
O atleta mais bem pago de sempre é . . .
O atleta mais bem pago da
história do desporto mundial é Caio Apuleio Diocles. Este lamecense, condutor
de quadrigas que disputava corridas de bigas na Roma Antiga, acumulou em toda a
sua vida desportiva uma fortuna de 35.863.120 sestércios, que equivale nos dias
de hoje a cerca de 13 mil milhões de euros.
Este glorioso atleta nasceu e
cresceu na antiga Lusitânia (atual Portugal), mais especificamente em Lamego,
no séc. II d.C., e era tratado por Lamecus por essa razão. Já neste tempo a
importância que o desporto tem na sociedade era reconhecida e, por isso, estes
atletas eram muito mais bem pagos do que os próprios senadores romanos.
Nesta época, em que já existiam
equipas e transferências dos atletas, o principal centro de corridas de bigas
era o Circus Maximus, que tinha capacidade para 200.000 espetadores. Os
cocheiros (como eram chamados os atletas) inicialmente costumavam ser escravos
ou de origem pobre, mas se fossem bem-sucedidos, logo poderiam ganhar dinheiro suficiente
para comprar sua liberdade e, em alguns casos, poderiam ficar muito ricos, como
Caio Apuleio Diocles.
Este conterrâneo nosso, já que
partilhamos o mesmo distrito, não tem o reconhecimento público que os seus
feitos merecem, mas é motivo de orgulho para todos nós quando tomamos
conhecimento da sua existência e da sua história. Lamecus começou a correr aos
18 anos e rapidamente chegou a Roma, onde a sua carreira logo lhe traria
riqueza, fama e reconhecimento por todo o Império. Caio
bateu muitos recordes de vários precursores famosos ao vencer 1.462 das 4.257
corridas que disputou. Na época foi erguida uma inscrição monumental em Roma
pelos seus colegas e admiradores quando se retirou aos 42 anos, 7 meses e 23
dias, que o consagrou “campeão de todos os cocheiros”.
A corrida de bigas (uma variação
da corrida de cavalos) remonta ao século VI a.C. e foi o desporto mais popular
do Império Romano. Caio Apuleio Diocles, que foi o cocheiro mais bem‑sucedido
da Roma Antiga, participava em corridas de bigas de seis e sete cavalos, o que
pode explicar a origem da sua enorme fortuna, em detrimento das corridas com
menor número de cavalos. Os cocheiros que participavam das corridas de bigas de
seis e sete cavalos ganhavam muito mais dinheiro do que todos os outros.
A importância destes desportistas
era reconhecida pelos imperadores romanos como ferramenta de controlo das
massas, em conjunto com a distribuição gratuita de comida.
O estudo que permitiu chegar a
Caio Apuleio Diocles foi realizado pelo historiador Peter Struck, da
Universidade da Pensilvânia, que ao ler um estudo sobre os atletas mais bem
pagos dos tempos recentes na revista Forbes decidiu investigar os séculos
anteriores. O ex-basquetebolista, Michael Jordan, encabeça a lista com cerca de
US $ 1,7 bilhão ganho ao longo de sua carreira, enquanto o segundo lugar da
lista está o golfista Tiger Woods, com US $ 1,67 bilhão.
Desenho de Paulo
Medeiros
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
Para que clube vai o meu filho?!
Aproxima-se o
início de uma nova época desportiva. Esta é altura que muitos pais têm de fazer
a escolha das modalidade e/ou clube em que vão inscrever o seu filho.
Concentramo-nos neste texto
apenas nas crianças que vão começar agora a atividade desportiva federada. E
nasce o dilema para os progenitores: para que clube vai o meu filho?!
A verdade é
que os pais não estão, na maior parte das vezes, preparados para serem pais de
atletas. A vida vai alterar-se quando o filho entrar no desporto e muita da
rotina familiar passar a ser organizada em função dos horários desportivos. É
ainda de acrescentar que os fins de semana também serão condicionados pela
participação do filho na competição.
Os pais têm de
ter no desporto a vivência que têm na vida escolar e procurar entender a
importância do desporto e o valor que se atribui à sua prática, bem como
adquirir o conhecimento mínimo da modalidade.
Os clubes têm
de entender e de se preparar para estas situações, pelo que devem disponibilizar
toda a informação aos pais de forma rigorosa e verdadeira. Se não fizerem este
tipo de trabalho, vão criar condições para que inúmeras vezes os pais se indignem
e se sintam frustrados. Atualmente existe a consciência da importância de se
garantir o apoio de pais bem informados. A realização de uma reunião com os
pais no início de cada época, é uma ideia-chave para reduzir a possibilidade de
atos desagradáveis. O tempo que se gasta na preparação e concretização desta
reunião/apresentação será um bom investimento. O principal objetivo é aumentar
o valor que deve ser atribuído à participação das crianças na prática
desportiva do clube, para o seu desenvolvimento físico, psicológico e social.
Os pais têm o
direito de ser exigentes e para isso devem informar-se sobre a filosofia do
clube, os seus recursos humanos e estruturas físicas. Para ser efetiva, a
comunicação tem de se basear numa troca de informações nos dois sentidos e
implicar todos os intervenientes. As
conversas devem ser sempre fora dos treinos e das competições. É muito
importante que saibam a quem vão entregar o filho e tenham confiança nessas
entidades.
Por vezes os
pais, mal informados, começam a valorizar-se a si próprios em função dos
resultados que o filho consegue alcançar e transformam-se em vencedores e
vencidos através da pressão exercida. As crianças não são troféus. A criança,
que só quer ser feliz, pode não encontrar no espaço desportivo um ambiente
saudável.
Hoje qualquer
jovem pode treinar em clubes das grandes cidades que, numa aposta de marketing, têm datas para receber
atletas que os pais «empurram» para o que pensam ser mais fácil para alcançar o
sucesso. Hoje já se trabalha bem em quase todo o lado. Para se fazer um jogador
de topo, dezenas de jovens viram as suas vidas frustradas pela aposta «cega» no
desporto. Reflitam sobre isso.
Os dirigentes
e treinadores têm também um papel decisivo, pois muitas vezes estão unicamente
centrados no treino «profissional» e nos resultados, ignorando os aspetos
principais da iniciação da prática desportiva: valorização das atitudes, ética
e fair-play.
Quer as
crianças ganhem ou percam, o importante é divertirem-se na competição, sendo o
resultado uma mera indicação para o treinador avaliar, internamente, a evolução
dos seus atletas.
Não se deve
NUNCA esquecer que as crianças não são profissionais em miniatura e os adultos
não os devem crucificar, como não devem criar expectativas injustas sobre a sua
evolução. O caminho é longo.
Mas assistir,
apoiar, incentivar, aplaudir as nossas crianças e os nossos jovens nas
competições desportivas é, ainda, a melhor forma de relaxarmos e de contribuirmos
para uma geração de jovens saudáveis.
Votos de uma
excelente época desportiva para todos vós.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
(NOVO) ESTATUTO DO ESTUDANTE ATLETA
A falta de expectativas e de tempo eram dois dos principais obstáculos à continuidade da prática desportiva pelos jovens. Estudos recentes demonstram que, na adolescência, os jovens deixam de praticar desporto federado por se sentirem já cansados e, muitos deles, por verem defraudadas as suas expectativas de uma possível carreira de atleta. No caso dos jovens do interior, a certeza de que, ao irem para o ensino superior, deixam de ter condições para jogar leva a que antecipem esse abandono por volta dos 15-16 anos.
Com a criação do estatuto do estudante atleta federado, abre-se uma nova expectativa para estes jovens. A importância do desporto na formação dos estudantes do ensino superior é reconhecida por todos. Os responsáveis pela oferta educativa nesse nível de ensino vão ter de ponderar e valorizar as componentes desportivas e culturais que disponibilizam aos estudantes.
A ausência de um estatuto que defendesse os estudantes atletas complicava, e muito, a conciliação do tempo de forma a não faltar a aulas para ir a treinos ou vice-versa.
O estatuto do estudante atleta vem acabar com esse “dilema” entre estudos e desporto. Era uma antiga reivindicação da Federação do Desporto Universitário e vai ajudar os estudantes que queiram conciliar os estudos do ensino superior com o desporto.
Na prática, esta aprovação representa um alargamento de um conjunto de condições favoráveis a que os estudantes possam conciliar a atividade académica com a atividade de praticante desportivo. Alguns dos benefícios incluem o direito a alterar a data de exames ou a permissão de faltas.
Ter-se-ão, sem dúvida, perdido atletas com potencial devido às dificuldades impostas pelos horários, exames, prazos de entrega de trabalhos… Tal como milhares de atletas não completaram as respetivas licenciaturas por terem colocado a evolução desportiva à frente de tudo o resto! Ora, num mundo ideal, as duas atividades devem ser paralelas e complementares.
«O Médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe.» Abel Salazar
Cabe agora às instituições e professores cumprir a legislação e não criar dificuldades a estes atletas. Através das instituições escolares, clubes, associações e entidades diversas, as regiões têm de disponibilizar uma oferta desportiva diversificada e de qualidade para serem competitivas.
A prática desportiva federada tem influência no desempenho profissional e que, de entre as competências adquiridas na prática desportiva, a liderança assume um papel fundamental. É certo que as competências adquiridas na prática desportiva federada, quando devidamente aplicadas em contexto laboral, são muito úteis e acrescentam valor.
O desporto pode ensinar: trabalho em equipa, força mental, objetivos partilhados, competir para resultados, plano de jogo, treino, comunicação, gestão do tempo, e avaliação de desempenho. A estas competências acrescente-se a mais importante: ética.
No momento de procurarem novos colaboradores, as empresas começam a prestar especial atenção ao curriculum desportivo, para além do académico e profissional.
«(…) o Desporto não é só uma atividade física é, sobre o mais, humana.» Manuel Sérgio.
O desporto estimula a paixão, a disciplina, a coragem, a liderança, a responsabilidade e a resiliência, como nenhuma outra atividade. Os estudantes que praticam desporto são melhores alunos e serão melhores trabalhadores e melhores seres humanos.
domingo, 7 de julho de 2019
VIII GALA DOS AFONSINHOS
Quando recebi o convite do Marcos Antunes para participar na VIII Gala da Escola de Futsal os Afonsinhos, São Martinho de Mouros, aceitei de imediato com enorme satisfação.
Receber uma distinção é uma honra e acresce uma enorme responsabilidade quando no leque dos distinguidos estão os campeões europeus Jorge Brás e Nuno Dias, a atleta Inês Fernandes, a Coach de Alta Performance Suzana Torres coach, o professor José Neto, a RTP, entre outros treinadores, aletas e dirigentes!
🙌
Estou sinceramente grato aos Afonsinhos. Parabéns pelo vosso percurso e os maiores sucessos para o futuro. Obrigado.
🙌
Estou sinceramente grato aos Afonsinhos. Parabéns pelo vosso percurso e os maiores sucessos para o futuro. Obrigado.
terça-feira, 28 de maio de 2019
Táticas e modelos comportamentais!
Durante os
15 anos em que estive ligado ao desporto como treinador de crianças e jovens,
foram muitos os episódios que me incentivaram a escrever sobre o comportamento
dos adultos na prática desportiva.
Todos
cometemos erros, e eu não sou exceção. Queria e quero sempre ganhar. Apaixonado
pelo desporto, vivia tanto ou mais que muitos que estabulavam em cada jogo, sem
que para isso precisasse de desrespeitar quem quer que fosse.
A verdade
é que nunca foi preciso nenhum árbitro me admoestar e nunca fui injuriado por
adversários por alguma atitude menos própria que realmente tenha adotado. A
convivência com os pais nem sempre foi fácil. Muitas vezes a mensagem não lhes
chegava da melhor forma e sentia-me incapaz de lhes transmitir que o que
fazíamos era o que entendíamos ser o melhor para o filho.
As sextas-feiras,
dia das convocatórias, eram um suplício. O telemóvel tocava quase em
permanência.
O
insucesso de alguns atletas em jogo só atrasa o seu processo de evolução. Os treinos
são autênticas sessões de aprendizagem/evolução, mas não são encarados como
tal. Entre um jogo em que o fracasso está presente e um treino em que o êxito é
muito grande, os pais optam sempre pelo primeiro. Desvalorizar o treino é um
dos grandes erros dos progenitores.
Partilho
convosco alguns dos episódios que vivenciei e que ainda hoje não compreendo
porque tiveram, têm e terão de ser assim.
1 –
Jogava-se uma final de um campeonato distrital de futebol de 7, sub-13. A
rivalidade entre as duas equipas é enorme e o ambiente, com o campo cheio de
espetadores, de muita festa e adrenalina. Quando o árbitro apita para o fim do
jogo é uma explosão de alegria pela vitória. Surpreendentemente, a mãe de um
atleta meu invade o campo e dirigindo-se a mim, com o dedo indicador apontado
ao meu rosto, diz-me:
– "Não volta a falar assim para o meu filho". Nem o
título de campeão me livrou da descompostura.
(Os pais não percebem que a forma como
comunicamos com os atletas depende da personalidade destes e de os conhecermos
bem em competição.)
2 – Fase
final de um campeonato distrital de juvenis. A competitividade estava no auge e
eis que na véspera de um jogo, por volta da 1:30 h da noite de um sábado, um
meu atleta envia um SMS a solicitar transporte para o jogo da manhã de domingo.
A hora deste envio devia-se ao facto de ter adormecido cedo e se ter esquecido
de enviar a mensagem. Pura mentira. Estava mesmo à minha frente na zona
histórica da cidade, zona dos bares e de convívio noturno. A minha resposta
foi:
– "Deixa-te estar onde estás, que acabas de ser
desconvocado". Não pactuei com a mentira. Perdemos o jogo e o 1.º
lugar. O jovem e a mãe pediram desculpa pelo sucedido e afirmaram que não
voltava a acontecer. No final do jogo seguinte, um colega treinador do clube
abordou-me e disse-me que o atleta em questão estava na mesma zona na noite
anterior ao jogo. De nada valeu. Hoje sei que prejudiquei a equipa.
(Na formação não conseguimos corrigir
comportamentos se os pais forem cúmplices nos desvios às regras pelas quais se
deve reger um atleta.)
3 –
Campeonato distrital de juniores. O jogo aproximava-se do fim e, na bancada, os
pais andavam numa pancadaria que concentrava a atenção de todos. O jogo deixou
de ser importante e os atletas e árbitros só olhavam para a bancada. O árbitro
apitou para o final do jogo e só vi os jovens a correrem desenfreados para as
bancadas em socorro dos pais. A gravidade da situação levou a que fôssemos
aconselhados a recolher rapidamente aos balneários e lá ficássemos fechados.
Quase duas horas encarcerados, com muitas pedras a caírem no telhado do
balneário e gritos de ameaças. Por fim, a GNR chegou e escudou-nos até ao
autocarro para que pudéssemos regressar. Momentos de terror autênticos.
(Campos/pavilhões complicados sempre
existiram. No século XXI não se justificam estes comportamentos, porque na
formação o público é constituído maioritariamente pelos familiares dos atletas,
que devem dar o exemplo de bom comportamento e educação.)
4 –
Campeonato distrital de juniores. O jogo decorria normalmente e a minha equipa
vencia por 2-0 na situação de visitante. Numa saída de bola pela linha lateral,
o atleta adversário fez o lançamento com outra bola que rapidamente apanhou. A
primeira bola tinha ficado a meus pés. Quando a devolvi, rasteiramente, para o
banco dos visitados, eis que sou surpreendido com a atitude patética do
treinador adversário. De braços abertos e virado para a bancada, começou a
dialogar com o público:
– "Já viram que estes gajos da cidade vêm para
aqui gozar connosco?! A bola estorvava-lhe e teve de a enviar para aqui para me
distrair". O meu
espanto era total e fiz-lhe a sinalética de que ele era tolinho. No final do
jogo, e já na zona do túnel, veio pedir-me desculpa pelo sucedido, dizendo que
nada tinha contra mim, mas que, perante a derrota, "convém agradar aos
pais com estas atitudes"!
(Muitos agentes desportivos, entre os
quais treinadores, utilizam a manipulação dos pais e atletas para a sua agenda
pessoal. Na escolha do perfil de treinador de formação deve constar o saber ser
e estar.)
5 –
Campeonato de sub-10. Era uma criança com uma paixão enorme pelo futebol e com
potencial reconhecido por todos. Por norma, era a mãe que o levava aos treinos
e jogos. No primeiro jogo a que foi assistir, o pai passou toda a primeira
parte a dar indicações ao filho. Este estava quase imóvel e de semblante
fechado. No intervalo, quando o abordei para saber porque estava ele triste e
parado, respondeu-me:
– "Mister, o meu pai não se cala, está sempre a
dizer o que devo fazer ou não. Não consigo jogar assim". Falei com ele,
dizendo para tentar abstrair-se e decidir por ele. No final, conversei com o
pai, que se mostrou estupefacto por ter causado esse efeito, já que era
precisamente o contrário do que ele pretendia. Pediu desculpa e assim foi:
nunca mais deu indicações e passou a concentrar-se no apoio à equipa.
(Devemos abordar educadamente os pais
e transmitir-lhes que quando estão a dar instruções ao filho, da lateral, estão
a distraí-lo e a criar nele uma grande confusão.)
6 –
Campeonato Nacional de Iniciados. A época começava e, nos dois primeiros jogos,
a equipa não tinha ainda tido o desempenho esperado por muitos pais. Depois da
segunda derrota, leio a crónica do jogo num Jornal Regional. O "jornalista"
comentava o meu trabalho de uma forma tendenciosa, mandando autênticos recados.
Procurei quem tinha assinado o texto para lhe dizer que não aceitava aquele
tipo de recados. O autor do texto e quem assinara não eram a mesma pessoa. O
texto, que eu fiz questão de partilhar no meu Facebook, tinha sido escrito pelo
pai de um atleta (o que para mim já não era propriamente novidade), a fazer de
treinador com preferência para que o filho jogasse.
(Os pais são muito importantes no
acompanhamento dos filhos na prática desportiva. Podem colaborar em várias
atividades do clube como transportes, angariação de fundos, logística, mas
NUNCA na área técnica.)
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