terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando a formação começa a imitar o alto rendimento

O alto rendimento inspira. A formação educa. Quando confundimos estas duas missões, corremos o risco de perder aquilo que o desporto tem de mais valioso: a capacidade de formar pessoas antes de formar atletas.

Há mudanças que acontecem de forma tão gradual que quase deixam de ser percebidas. No desporto de formação, uma delas merece particular atenção: a crescente tendência para reproduzir, nas crianças e nos jovens, práticas próprias do desporto profissional.

Hoje, já não é invulgar encontrar atletas muito jovens acompanhados por empresários ou intermediários, com páginas nas redes sociais geridas como verdadeiras marcas pessoais, vídeos de destaques produzidos regularmente, sessões fotográficas, anúncios públicos de mudança de clube e uma exposição mediática que, há poucos anos, estaria reservada a quem competia ao mais alto nível.

A questão não está na existência destas ferramentas. Empresários, comunicação e redes sociais fazem parte da realidade do desporto moderno e, quando utilizados no momento adequado, podem desempenhar um papel importante.

A verdadeira questão é outra: estaremos a antecipar etapas fundamentais do desenvolvimento de uma criança?

Na formação, o objetivo nunca deveria ser reproduzir o modelo do alto rendimento. A missão é diferente. Enquanto o desporto profissional vive de resultados, contratos e visibilidade, o desporto de formação existe para desenvolver pessoas, cultivar competências, transmitir valores e proporcionar experiências que contribuam para o crescimento integral de cada jovem.

Sem nos apercebermos, podemos transformar o processo de formação numa sucessão de montras.

Contudo, observa-se uma aproximação cada vez maior entre estes dois mundos.

Quando uma criança sente que cada jogo pode influenciar o seu futuro, quando cada publicação nas redes sociais procura reforçar uma imagem de sucesso ou quando a mudança de clube é comunicada como uma transferência profissional, o risco é que o foco deixe de estar na aprendizagem e passe a centrar-se na projeção de uma carreira.

Sem nos apercebermos, podemos transformar o processo de formação numa sucessão de montras.

Mas o desenvolvimento desportivo não acontece nas redes sociais. Não acontece através do número de seguidores. Nem da quantidade de visualizações de um vídeo.

Acontece no treino diário, na capacidade de lidar com o erro, na persistência perante a dificuldade, na aprendizagem da cooperação e no prazer de continuar a praticar.

É precisamente por isso que nenhuma estratégia de promoção consegue substituir aquilo que só o tempo oferece: maturidade.

Talvez devêssemos recordar uma ideia simples: antes de existir um atleta, existe uma criança. Antes de existir uma carreira, existe uma pessoa em construção.

É legítimo que as famílias sonhem. O sonho faz parte do desporto e da educação. O problema surge quando a velocidade do sonho ultrapassa o ritmo natural do crescimento.

Nem todos os jovens atletas chegarão ao alto rendimento. Aliás, a esmagadora maioria não o fará. Mas todos levarão consigo aquilo que aprenderam durante os anos de formação. É por isso que o maior legado do desporto não se mede pelo número de contratos assinados, mas pela qualidade dos adultos que ajudou a formar.

Talvez esteja na altura de perguntarmos se queremos apenas preparar futuros profissionais ou se continuamos verdadeiramente comprometidos com a missão de educar através do desporto.

Porque, no fim, o maior sucesso da formação não é produzir atletas de elite.

É formar pessoas que, independentemente do caminho que venham a seguir, possam dizer que o desporto contribuiu para serem melhores seres humanos.

Vitor Santos  (Embaixador do Plano Nacinal de Ética no Desporto)

#EducarOSonho #educarosonho #respeito #valores #eticadesportiva



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os saloios das redes sociais

 As redes sociais deram voz a toda a gente. Isso é uma conquista extraordinária.

O problema é que também deram palco permanente a quem não procura compreender, debater ou aprender. Procura apenas vencer uma discussão, acumular likes e alimentar a própria tribo.

São os saloios das redes sociais.

Não se distinguem pela escolaridade, profissão ou estatuto social. Encontramo-los em todos os lugares. O que os caracteriza é a atitude. A arrogância de quem sabe tudo. A incapacidade de admitir um erro. A necessidade compulsiva de comentar tudo, mesmo quando não percebe nada do assunto.

Vivem de títulos sem ler notícias. De vídeos sem contexto. De frases retiradas de entrevistas. De frames e prints cuidadosamente escolhidos para provar uma verdade que já tinham decidido antes dos factos aparecerem.

Não procuram informação. Procuram confirmação.


Quando os factos não ajudam, mudam de assunto. Quando os argumentos falham, atacam a pessoa. Quando são confrontados com a própria incoerência, respondem com sarcasmo, insultos ou emojis.

Nas redes sociais, a educação perdeu espaço para a reação instantânea. O pensamento crítico foi substituído pela indignação permanente. E a dúvida — que deveria ser sinal de inteligência — passou a ser vista como fraqueza.

Os saloios digitais não querem compreender o mundo. Querem apenas que o mundo confirme aquilo em que já acreditam.

E talvez o mais preocupante seja que este comportamento deixou de ser exceção. Tornou-se normal. Tornou-se entretenimento. Tornou-se algoritmo.

Hoje, muitas pessoas entram nas redes para conversar e acabam envolvidas num concurso de certezas absolutas, onde quem grita mais alto acredita ter mais razão.

Mas a verdade continua a ser a mesma, dentro ou fora da internet:

A inteligência não está em ter opinião sobre tudo.

Está em saber quando ouvir, quando aprender e quando admitir que podemos estar errados. Porque há uma enorme diferença entre usar a tecnologia para ampliar conhecimento e usá-la para amplificar ignorância. E essa diferença vê-se todos os dias nas redes sociais.


Vitor Santos | Educar o Sonho


Quando a formação começa a imitar o alto rendimento

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