segunda-feira, 11 de maio de 2026

Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar a quem mais devia proteger. (falhar a alguém)

Nunca se investiu, ou gastou, tanto na formação de jogadores em Portugal e, ainda assim, nunca foi tão evidente o desalinhamento do sistema. Menos de 2% dos jovens atletas chegam ao futebol profissional. Este número, por si só, deveria obrigar a uma reflexão séria. Mas, em vez disso, continuamos a alimentar a ilusão.

Multiplicam-se regulamentos, certificações, competições e mecanismos de proteção de ativos. Tudo parece mais organizado, mais profissional, mais seguro. Mas a pergunta essencial permanece: para quem está, afinal, a funcionar este sistema?

Entre os 9 e os 11 anos, crianças são retiradas dos seus contextos e colocadas numa espécie de corrida antecipada, onde o destino já está, na maioria dos casos, traçado. Famílias reorganizam vidas, percorrem centenas de quilómetros por semana e investem emocional e financeiramente num sonho que, estatisticamente, tem poucas hipóteses de sobreviver. Antes dos 14 anos, muitos destes jovens já foram descartados.

Não falharam – foram descartados.

E aqui reside uma das maiores contradições: fala-se cada vez mais em proteger o investimento, mas protege-se o quê e quem? Ao antecipar decisões, ao concentrar talento cada vez mais cedo, o sistema expõe precisamente aqueles que deveria resguardar.

O preço não é apenas individual e conjuntural, é coletivo e estrutural. Ao esvaziar os contextos locais, enfraquecem-se clubes, empobrecem-se competições regionais e limita-se o desenvolvimento global. Um jogador não se constrói apenas com treino intensivo; constrói-se com diversidade, com erro, com competição equilibrada e com identidade. Estamos a eliminar essas variáveis em nome de uma suposta otimização.

Depois, há o silêncio desconfortável sobre o impacto humano. Retirar uma criança da sua família, dos amigos e do seu ambiente natural não é um detalhe logístico, é uma rutura. E quando o processo termina, porque quase sempre termina, o que fica? Quem assume esse custo?

Os grandes clubes, sustentados pelo seu poder de atração, não captam apenas talento – captam expectativas. Alimentam narrativas de sucesso que raramente se concretizam, muitas vezes junto de famílias sem ferramentas para interpretar a exigência real do percurso. Ao mesmo tempo, acumulam dezenas e dezenas de atletas nas suas academias, num modelo onde a probabilidade individual de afirmação é, na prática, residual. Não é formação personalizada, é concentração massiva.

O resultado é um desequilíbrio evidente: no interior do país, falta talento e competitividade; nos grandes centros urbanos, sobra quantidade e escasseiam oportunidades reais de desenvolvimento. E, pelo caminho, muitos clubes abandonam a sua identidade formadora para competir num mercado de curto prazo, onde o scouting e a urgência da vitória imediata se sobrepõem a qualquer lógica sustentável.

Também a competição perdeu o seu propósito. Deveria ser uma extensão do treino; tornou-se um fator de desgaste. Mais jogos, mais viagens, menos tempo para treinar, estudar, conviver e simplesmente crescer. Estamos a formar jogadores ou a consumir infâncias?


E quando se olha para o topo, a narrativa desmorona-se.

Como refere Tarantini: "Apenas 16% dos jogadores chegam à I Liga, onde permanecem em média 4,7 anos. Cerca de 10% têm experiências no estrangeiro, apenas 2% atingem a seleção nacional sénior e 95% nunca chegam a representar um dos principais clubes portugueses".

Arsène Wenger vai ainda mais longe: "Dos jogadores que assinam contrato profissional entre os 16 e os 20 anos, 67% já não jogam futebol aos 21".

Ou seja, mesmo entre os escolhidos, a maioria fica pelo caminho. A exceção é vendida como regra – e isso é, no mínimo, desonesto.

Talvez esteja na altura de inverter a pergunta. Em vez de "quantos chegam?", devíamos perguntar "quantos ficam pelo caminho – e em que condições?".

Porque, no fim, há uma verdade que não pode continuar a ser ignorada: antes do atleta, está o filho. A criança. O cidadão.

E um sistema que se esquece disso não está a formar – está a falhar.



Vitor Santos | Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto



 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Identidade do formador



Formar exige humildade.
O objetivo não é mostrar talento próprio, mas potencializar o dos atletas.
O verdadeiro formador celebra a evolução da criança, não a sua própria imagem.
Vitor Santos | Educar o Sonho
O resultado passa. A formação fica.

Cultura envolvente



Pais como aliados, não como pressão
A formação não acontece apenas dentro do campo.
Pais e familiares têm papel determinante na construção da confiança e motivação da criança.
Quando há pressão excessiva, o prazer desaparece.
Quando há apoio equilibrado, o crescimento acontece.
Formar também é educar o contexto.
E envolver os pais como parceiros, não como críticos permanentes.
Vitor Santos | Educar o Sonho
O resultado passa. A formação fica.

 

O clima emocional vem antes da técnica




No desporto de formação, ainda insistimos em começar pelo gesto técnico.
Mas esquecemo-nos do essencial:
👉 A primeira rede de atenção é emocional.
Se a criança não se sentir segura, valorizada e pertencente, a aprendizagem não acontece.
O cérebro entra em modo de defesa - não em modo de crescimento.
Vivemos tempos de ansiedade precoce e pressão constante.
Não podemos exigir rendimento máximo ao domingo e ignorar o peso emocional que muitas crianças carregam durante a semana.
Um clube de formação deve ser:
• Um espaço seguro
• Um ambiente de pertença
• Um lugar onde o erro é aprendizagem
Originalidade não é indisciplina.
Autonomia não é desrespeito.
Silêncio nas bancadas não é desinteresse, é confiança.
O futebol (ou qualquer modalidade) é uma ferramenta de educação para a vida.
Grandes treinadores veem primeiro a pessoa.
Depois, o atleta.
Se o clima emocional for saudável, o rendimento será consequência.


Vitor Santos | Embaixador do PNED

Mister, posso dizer-lhe uma coisa?


Tenho onze anos.
E quando entro em campo - seja num pavilhão, numa pista ou num campo ao ar livre - só queria poder jogar.
Gosto de correr, saltar, tentar outra vez, rir com os meus colegas quando alguma coisa não sai bem.
É isso que para mim é o desporto.
Mas às vezes tenho um bocadinho de medo de lhe dizer isto.
Quando grita muito a partir do banco, eu deixo de conseguir pensar.
A minha cabeça fica confusa.
Oiço a sua voz forte a dizer o que devia fazer, o que fiz mal, para onde devia ter ido… e eu bloqueio.
Não é que eu não queira fazer bem.
Quero mesmo.
Mas quando grita assim tão alto, sinto como se já tivesse falhado antes sequer de tentar.
E então começo a ter medo.
Medo de errar.
Medo de falhar.
Medo de que, se não conseguir, fique ainda mais zangado.
E acontece uma coisa estranha:
quanto mais quero acertar, mais tudo me sai ao contrário.
Às vezes começo a pensar que talvez não seja capaz.
Que talvez o desporto não seja para mim.
Que talvez seja melhor desistir.
Uma vez até disse ao meu pai:
“Se praticar desporto é sentir-me assim, então talvez seja melhor fazer outra coisa.”
Mas a verdade é que eu adoro treinar.
Adoro competir.
Adoro fazer parte da equipa.
É por isso que lhe queria dizer isto.
Talvez não se aperceba, mas quando grita dessa forma alguns de nós ficam assustados.
Eu sou um deles.
Quando fala connosco com calma, quando nos encoraja, quando diz “vá, tenta outra vez”, eu sinto-me mais confiante.
Corro mais.
Arrisco mais.
Aprendo mais.
Eu quero aprender.
A sério que quero.
Só preciso de me sentir tranquilo.
Preciso de saber que, se errar, isso faz parte.
Que errar não significa desiludir ninguém.
Porque somos crianças.
E estamos apenas a tentar crescer através do desporto.
👉Uma criança de 11 anos
Nota do Educar o Sonho
Quantas crianças já pensaram isto - e nunca tiveram coragem de o dizer?
No desporto de formação, o objetivo é ganhar jogos
ou é formar pessoas?
O erro é um problema
ou é o caminho da aprendizagem?
E a forma como comunicamos - no banco, na bancada, no treino -
está a construir confiança
ou medo?
Abrimos o debate.
Treinadores, pais, dirigentes:
que cultura estamos a criar?
Porque educar pelo desporto
é, antes de tudo, educar o sonho.



Vitor Santos | Embaixador do PNED


 

Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar...