domingo, 28 de fevereiro de 2021
sábado, 2 de janeiro de 2021
Abandono desportivo empobrece o país
O ano de 2020 acaba com a esperança de que a vida, tal e qual a
conhecemos, irá voltar à normalidade dentro de meses. Para o Desporto, foram
duas épocas desportivas atípicas e que vieram trazer mais abandono e pobreza
aos clubes/modalidades mais modestos.
O abandono precoce da prática desportiva tem sido um tema para o qual
temos alertado com muita veemência. O excesso de pressão e as elevadas
expetativas que se criam a crianças desde os sub-8, e que nos sub-15 não se
confirmam, levam à frustração e ao cansaço. Agora são os escalões acima dos 15
anos a desistirem por não haver competição. A desmotivação leva ao abandono. As
razões para o abandono podem ser positivas ou negativas, mas estas últimas são,
de certeza, em maior número. Reduzir a taxa de abandono deve ser um desígnio de
todos – a saúde e economia agradecem.
O desporto em Portugal sofre a maior perda de praticantes que alguma vez
aconteceu. As associações, os clubes e todos quantos estão ligados ao desporto
vão ter de fazer renascer a paixão pela prática desportiva de forma a se
conseguir minimizar essa perda. Estima-se, que só a nível federado, estejam
parados mais de 150 mil praticantes. Muitos destes já não regressam e outros
terão menor capacidade para socializar, para se superar e para traçar objetivos.
Na temporada passada, nas modalidades de futebol, futsal, andebol, hóquei
em patins, basquetebol e voleibol existiam 220 735 jovens federados e
atualmente contam-se apenas 47 774. Elucidativo. A superação e a
resiliência são características dos atletas e por isso vamos acreditar.
Ainda não sabemos bem como, nem quando, mas todos queremos retomar. As
boas práticas têm de vir com a retoma da atividade desportiva. Cada um de nós
tem uma função e, ao exercê-la, deve ser exigente consigo mesmo e com os
outros.
Ao contrário do que muitos apregoam, o desporto continua a ter intactos
os seus valores. Não está na moda o desvio comportamental. O que está na moda é
a bacoquice, a ausência de solidariedade, a falta de exemplo de quem ganha
milhões e deve transmitir através da atitude e da palavra os valores de que se
faz o futebol.
As punições têm de ser revistas. Quem ganha milhões tem de pagar em
consonância com o vencimento. Não faz sentido treinadores, jogadores e
dirigentes que ganham imenso dinheiro serem penalizados em meia dúzia de euros
por promoverem o ódio, a violência, o racismo, a descriminação. Quando se
releva qualquer ato destes, está-se a criar impunidade. A justificação de não
saber perder não valida absolutamente nada!
O futebol é “só” a atividade mais mediática e escrutinada no mundo. As
redes sociais amplificam. Mas esta é a sociedade atual e tem coisas boas e más,
como sempre foi.
O que é fundamental não esquecer, e muitos infelizmente esquecem-no, é
que o desporto é uma escola de valores e não de egos. Quanto melhor for a
educação desportiva da criança e do jovem, melhores adeptos, treinadores e
dirigentes vamos ter. Por agora, urge cumprir as regras de saúde pública e
esperar que o futuro traga de volta as crianças e o desporto na sua plenitude.
Votos de um excelente ano de 2021.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
(Não) vai ficar tudo bem
O ano 2020 ficará sempre marcado pela esperança em que a expressão “vai
ficar tudo bem” nos fez acreditar. A verdade é que depois de bem-comportados,
desconfinamos mal e voltamos a desvalorizar o que temos de mais importante: a
saúde e o respeito pelo outro.
Os dois meses de confinamento deram essa esperança de mudança a quem
escreve sobre Desporto, a quem acredita piamente nos seus valores e que a
competição só vale quando existe respeito pelo corpo, pelas regras, pelo
adversário, pelo árbitro/juiz ou pelo público.
Vivemos momentos, ainda, de muitas incertezas. O stress é visível no
dia-a-dia. Mas será que não aprendemos nada?!
O futebol profissional, que maltratou o público com jogos durante os dias
de semana a horas tardias, que não quis erradicar a violência que grupos
organizados cometem, preços oportunistas, vem agora exigir público? E do
bem-comportado?! Não souberam fidelizar o “puro” adepto. Não transmitiram
valores que o desporto não pode dispensar. Atletas e treinadores merecem
público. Quem geriu o futebol profissional e não percebeu que a essência do
futebol é o público no estádio, e não a televisão e o dinheiro, a participar
positivamente no apoio à sua equipa e que vibra com o espetáculo, não tem moral
para reclamar. Os clubes, que tanto promovem a clubite e o ódio, não
conseguiram unir-se na causa maior: a valorização do espetáculo desportivo.
Quanto ao desporto, de formação, a DGS tem adiado as resoluções mais
específicas e diretas para depois do início das aulas. Uma atitude discutível,
mas que não justifica que existam clubes que não cumprem as regras atuais de
distanciamento pelo medo de perder crianças/atletas. Basta passar por campos e
assistem-se a sessões de treino iguais àquelas que se realizavam antes de haver
COVID. Há muitas atividades que as crianças e os jovens podem realizar e que os
ajudam no seu desenvolvimento motor e psíquico.
No desporto sénior – não profissional, existem receios de alguns agentes
por não haver despistagens. As competições vivem semana a semana. Mas todos nós
na nossa vida o estamos a fazer. Tem sido muito difícil para todas as
organizações manter o equilíbrio entre a saúde, a economia e a retoma
desportiva! Com certeza que o Governo e a DGS terão de repensar a situação de
público nos campos. O desporto não tem culpa nem pode ser descriminado. Milhares
de agentes desportivos por este país têm esse direito. Qualquer espetáculo é
para o seu público. O direito do adepto não pode ser colocado em causa porque
se parte do princípio de que vai portar-se mal!
A saúde é primordial. A educação indispensável. A atividade económica
fundamental. Outras atividades como a cultura e o turismo essenciais à
sociedade.
Só que o Desporto, não a clubite, é tudo isto: saúde, economia, educação,
cultura e turismo.
Vai ficar tudo igual. Menos mal.
Expetativas e indefinições – O desporto é uma atividade MAIOR
A verdade é que este abandono tem consequências com que mais tarde vamos ser confrontados em termos de saúde pública. Por exemplo, os jovens sinalizados com problemas motores e de coordenação antes da pandemia vão estar muito pior. A obesidade também vai aumentar. Resumir a prática desportiva à competição é limitador. O Desporto é muito mais que competição.
As dúvidas sobre a retoma das competições infantojuvenis são enormes e divergem de país para país. No caso português, em que o desporto é visto com uma atividade menor e em que não se valoriza o desempenho e superação de cada um de nós, a situação torna-se mais indefinida. Em Inglaterra, já há provas de camadas jovens. Os escalões mais baixos foram os primeiros a começarem e aos praticantes apenas é medida a temperatura corporal.
No entanto, as competições jovens já podiam ter sido repensadas e esta
época já podiam realizar-se em moldes diferentes, optando por que fossem mais
localizadas de modo a evitar a deslocação de pessoas pelas diversas regiões.
Os campeonatos distritais seniores podiam ter público, em número
restrito. A única condição devia ser ter de se ser sócio do clube anfitrião.
Fidelizar o sócio, premiando-o com essa possibilidade. Ao contrário do futebol
profissional, o desporto amador merece que as aldeias, vilas e cidades tenham o
«seu» futebol ao domingo de tarde. Sempre fiéis. Existem problemas nos
transportes e nas instalações desportivas que asseguram a prática desportiva.
Em muitos casos apresentam condições débeis. Já sem pandemia eram obsoletas!
A verdade é que os critérios para a realização das competições não são
coerentes. Não são percetíveis. O desporto é muitíssimo mais que o futebol
profissional ou a fórmula 1. Asfixiar o desporto “puro” é um erro com custos
incalculáveis.
Dentro das possibilidades de cada família, devem os pais promover a
atividade física individual, como o badminton, ténis de mesa, um cesto de
basquete no terraço, andar de bicicleta e brincar. Brincar muito, em zonas onde
o possam fazer.
Protejam-se, para voltarmos o mais breve possível.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
Bola de Natal
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Maradona em Viseu : As minhas memórias
Era a década de 80 do século passado. Tudo era possível. Tudo estava a acontecer. O ano de 1982 foi marcante para a minha geração. O rock em português estava a “explodir”, a televisão começou a transmitir a cores e realizou-se o Mundial de Futebol em Espanha. Um acontecimento muito perto de nós e que foi transmitido na íntegra na RTP a cores. A seleção brasileira era a paixão de, quase, todos os adeptos e intervenientes do futebol e presenciávamos o “nascimento” à escala global de Diego Armando Maradona.
Para nós, beirões, foi uma época
em que o Académico de Viseu era um clube de 1.ª divisão e, nem que seja por
isso, os anos 80 começaram com cor e a cidade tornou‑se mais dinâmica e
moderna.
E eis que surge a notícia de que
os Prémios Gandula 1982/1983 iam ser entregues em Viseu e que entre os
premiados estava Maradona. Estes prémios eram uma criação do jornalista
brasileiro Wilson Brasil e homenageavam dezenas de desportistas – das mais
diversas modalidades – além de jornalistas e personalidades que se haviam
destacado no mundo do desporto. Os agraciados recebiam um pequeno troféu
dourado com a figura de um “gandula” (uma das crianças apanhadoras de bola nos
jogos de futebol), que personificava, segundo o seu criador, “a humildade que
simboliza a grandeza do desporto”. Para quem, como eu e os meus amigos, respirava
futebol, foi desde logo uma excitação podermos estar junto dos nossos ídolos e,
caso fosse verdade, de Diego Maradona.
Existem poucos registos desse evento. Só a memória de alguns que estiveram presentes e, como sabemos, esta por vezes atraiçoa-nos. Não posso precisar a data, sei que era uma noite fria, bem beirã. Eu e alguns dos meus amigos da Zona da Sé deslocámo-nos para o Restaurante São Mateus, por volta das 20:30, para podermos ver os treinadores, jogadores, árbitros, jornalistas, dirigentes que conhecíamos dos cromos e da TV. Neste restaurante decorreu o jantar com os convidados, que teve como anfitriões o presidente do Académico de Viseu, António Joaquim Ferreira (responsável por ter convencido Wilson Brasil a vir a Viseu realizar este evento), e o próprio criador do prémio.
No fim do jantar, convivia-se
animadamente e enquanto se vestiam os casacos quentes para a noite fria que estava
na zona da Feira, o então presidente da AFV, Osório Mateus e o jornalista Vilas
Boas, sabendo que uma dúzia de crianças esperava pelo momento em que os
presentes iam sair do restaurante para o Pavilhão A, vieram, como era apanágio
destes grandes senhores, chamar‑nos para podermos recolher autógrafos e
estarmos, um pouco, junto de todas estas personalidades do desporto. António
Vidal e António Figueiredo Caessa, presidente e vice-presidente da Câmara de
Viseu na época e Carlos Costa, secretário da AFV, estavam do “nosso lado” nesta
procura pelo contactar tanta gente ilustre. Não sendo eu muito de me chegar à
frente, ainda consegui, na minha sebenta de escola, os autógrafos do José Maria
Pedroto, João Rocha, António Garrido e de atletas como Gomes, Inácio, Reinaldo,
Dito, Octávio, Mário Jorge, Fonseca e outros que, ainda, guardo religiosamente.
Não havia selfies!
O evento começou no Pavilhão A da Feira de São Mateus e nós, que não tínhamos acesso, mantivemo‑nos junto à entrada, nas grades à espera de Maradona. A verdade é que as informações eram contraditórias e se uns diziam que ele já não vinha, outros que ele já estava na cidade a jantar. A mentalidade “tuga”, sempre presente, é que era um logro e que Maradona nunca viria a Viseu neste dia e que tudo não passava de uma manobra de boas intenções ou de marketing.
Não foi o que aconteceu. De
repente damos pela chegada de um carro e de lá de dentro sai o Diego Maradona.
A noite fria aqueceu e cerca de duas dezenas de crianças e jovens que ali
estavam correram para ele na ânsia de conseguir um autógrafo ou mesmo apenas de
estar ao seu lado.
Muitas histórias são contadas. Existe
um grande romantismo à volta desta passagem de Maradona por Viseu. Hoje é
difícil explicar às novas gerações os significados destes acontecimentos
saboreados lentamente e em que o mundo ainda era muito a preto e branco.
A verdade é que o melhor jogador
de futebol de sempre esteve na minha cidade, onde foi agraciado, quando já era
um ídolo para muitos de nós. Se o Mundial de 82 não lhe correu bem e a “minha”
Itália ganhou ao Brasil e foi campeã, Maradona, jogador do Barcelona, que começava
a ser o número 1 do mundo para mim, marcou presença numa gala realizada numa
cidade do interior do país. Deu-se a esse trabalho ou prazer. Era Diego Armando
Maradona!
Nunca fui de correntes e os meus ídolos foram sempre atletas geniais pelo que faziam em campo e pela sua personalidade, muitas vezes excêntricas. E aí ele era um génio único. Sem igual. Nunca o foi pelos valores que devem reger um futebolista. Desordenado ou caótico. Mas para mim foi o melhor. Sempre foi Maradona.
Saudades de Maradona.
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
Bandeira da Ética: um desafio
A Bandeira da Ética consiste na certificação e promoção dos valores éticos no desporto e é dirigida a todas as entidades que pretendam que seja reconhecido e certificado o seu trabalho neste âmbito.
Existem clubes com esta certificação e outros na fase da candidatura. É de aplaudir estes clubes por aceitarem o repto de serem diferenciados pela positiva. Ao nos apresentarmos como desportistas, não devemos temer a candidatura a uma certificação que valida os modos comportamentais desportivos.
Ao serem certificados, os clubes ganham novas responsabilidades e o compromisso com a ética desportiva passa a constar no seu quotidiano. Todos os intervenientes são parte integrante e responsabilizados quer no reconhecimento ou falta dele. Como é um processo avaliado e renovável, será mais do que triste ver retirada a um clube a Bandeira da Ética por comportamentos desviantes das boas práticas desportivas por parte de algum dos seus agentes desportivos.
A Bandeira da Ética é motivo de orgulho e contribui para uma sensibilização por parte do clube para o saber ser e estar no desporto. Dirigentes, treinadores, atletas e público, todos são responsabilizados e em comum têm a mesma causa: o DESPORTO. Este, pela sua natureza, possibilita e potencia o exercício e desenvolvimento de valores pessoais e sociais. Valores esses que, quando aplicados no e pelo desporto, facilmente são transpostos para o dia-a-dia de cada um de nós.
A Bandeira da Ética compreende objetivos como inovar, mediante a criação de uma metodologia para certificação dos valores éticos no desporto, garantir uma metodologia flexível e útil para todo o tipo de agentes do sistema desportivo, implementar um processo que identifique e promova boas práticas no desporto, promover a visibilidade de iniciativas multiplicáveis e reconhecer a ação dos agentes do sistema desportivo.
A todos os clubes fica o desafio de se candidatarem. Para criarem e fortalecerem o compromisso com a ética desportiva sem receios e assumindo uma postura verdadeiramente desportista e exemplar de como se estar no desporto e na vida. A defesa dos valores éticos e morais do desporto deve ser uma preocupação constante de todos. O desporto praticado por todos deve ser protegido de todos os desvios.
A Bandeira da Ética tem contribuído muito para que os clubes adquiram comportamentos saudáveis e alguns têm apresentado projetos que merecem destaque pela criatividade e resultados práticos, quer em competição, quer em treinos.
Desafiem-se!
Nota: “A implementação e operacionalização da Bandeira da Ética compete ao Instituto Português do Desporto e Juventude, I.P. (IPDJ, I.P.), através do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), mediante a criação de uma marca de qualidade das iniciativas desportivas, a qual deve ser potenciada pelas entidades certificadas dentro e fora da sua organização. Na sua conceção contou com o apoio da Universidade dos Valores.”
Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância
O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar...









