sábado, 21 de setembro de 2019

O atleta mais bem pago de sempre é . . .

O atleta mais bem pago da história do desporto mundial é Caio Apuleio Diocles. Este lamecense, condutor de quadrigas que disputava corridas de bigas na Roma Antiga, acumulou em toda a sua vida desportiva uma fortuna de 35.863.120 sestércios, que equivale nos dias de hoje a cerca de 13 mil milhões de euros.
Este glorioso atleta nasceu e cresceu na antiga Lusitânia (atual Portugal), mais especificamente em Lamego, no séc. II d.C., e era tratado por Lamecus por essa razão. Já neste tempo a importância que o desporto tem na sociedade era reconhecida e, por isso, estes atletas eram muito mais bem pagos do que os próprios senadores romanos.
Nesta época, em que já existiam equipas e transferências dos atletas, o principal centro de corridas de bigas era o Circus Maximus, que tinha capacidade para 200.000 espetadores. Os cocheiros (como eram chamados os atletas) inicialmente costumavam ser escravos ou de origem pobre, mas se fossem bem-sucedidos, logo poderiam ganhar dinheiro suficiente para comprar sua liberdade e, em alguns casos, poderiam ficar muito ricos, como Caio Apuleio Diocles.

Este conterrâneo nosso, já que partilhamos o mesmo distrito, não tem o reconhecimento público que os seus feitos merecem, mas é motivo de orgulho para todos nós quando tomamos conhecimento da sua existência e da sua história. Lamecus começou a correr aos 18 anos e rapidamente chegou a Roma, onde a sua carreira logo lhe traria riqueza, fama e reconhecimento por todo o Império. Caio bateu muitos recordes de vários precursores famosos ao vencer 1.462 das 4.257 corridas que disputou. Na época foi erguida uma inscrição monumental em Roma pelos seus colegas e admiradores quando se retirou aos 42 anos, 7 meses e 23 dias, que o consagrou “campeão de todos os cocheiros”.
A corrida de bigas (uma variação da corrida de cavalos) remonta ao século VI a.C. e foi o desporto mais popular do Império Romano. Caio Apuleio Diocles, que foi o cocheiro mais bem‑sucedido da Roma Antiga, participava em corridas de bigas de seis e sete cavalos, o que pode explicar a origem da sua enorme fortuna, em detrimento das corridas com menor número de cavalos. Os cocheiros que participavam das corridas de bigas de seis e sete cavalos ganhavam muito mais dinheiro do que todos os outros.
A importância destes desportistas era reconhecida pelos imperadores romanos como ferramenta de controlo das massas, em conjunto com a distribuição gratuita de comida.
O estudo que permitiu chegar a Caio Apuleio Diocles foi realizado pelo historiador Peter Struck, da Universidade da Pensilvânia, que ao ler um estudo sobre os atletas mais bem pagos dos tempos recentes na revista Forbes decidiu investigar os séculos anteriores. O ex-basquetebolista, Michael Jordan, encabeça a lista com cerca de US $ 1,7 bilhão ganho ao longo de sua carreira, enquanto o segundo lugar da lista está o golfista Tiger Woods, com US $ 1,67 bilhão.


Desenho de Paulo Medeiros

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Para que clube vai o meu filho?!


Aproxima-se o início de uma nova época desportiva. Esta é altura que muitos pais têm de fazer a escolha das modalidade e/ou clube em que vão inscrever o seu filho.
Concentramo-nos neste texto apenas nas crianças que vão começar agora a atividade desportiva federada. E nasce o dilema para os progenitores: para que clube vai o meu filho?!
A verdade é que os pais não estão, na maior parte das vezes, preparados para serem pais de atletas. A vida vai alterar-se quando o filho entrar no desporto e muita da rotina familiar passar a ser organizada em função dos horários desportivos. É ainda de acrescentar que os fins de semana também serão condicionados pela participação do filho na competição.
Os pais têm de ter no desporto a vivência que têm na vida escolar e procurar entender a importância do desporto e o valor que se atribui à sua prática, bem como adquirir o conhecimento mínimo da modalidade.

Os clubes têm de entender e de se preparar para estas situações, pelo que devem disponibilizar toda a informação aos pais de forma rigorosa e verdadeira. Se não fizerem este tipo de trabalho, vão criar condições para que inúmeras vezes os pais se indignem e se sintam frustrados. Atualmente existe a consciência da importância de se garantir o apoio de pais bem informados. A realização de uma reunião com os pais no início de cada época, é uma ideia-chave para reduzir a possibilidade de atos desagradáveis. O tempo que se gasta na preparação e concretização desta reunião/apresentação será um bom investimento. O principal objetivo é aumentar o valor que deve ser atribuído à participação das crianças na prática desportiva do clube, para o seu desenvolvimento físico, psicológico e social.
Os pais têm o direito de ser exigentes e para isso devem informar-se sobre a filosofia do clube, os seus recursos humanos e estruturas físicas. Para ser efetiva, a comunicação tem de se basear numa troca de informações nos dois sentidos e implicar todos os intervenientes.  As conversas devem ser sempre fora dos treinos e das competições. É muito importante que saibam a quem vão entregar o filho e tenham confiança nessas entidades.



Por vezes os pais, mal informados, começam a valorizar-se a si próprios em função dos resultados que o filho consegue alcançar e transformam-se em vencedores e vencidos através da pressão exercida. As crianças não são troféus. A criança, que só quer ser feliz, pode não encontrar no espaço desportivo um ambiente saudável.
Hoje qualquer jovem pode treinar em clubes das grandes cidades que, numa aposta de marketing, têm datas para receber atletas que os pais «empurram» para o que pensam ser mais fácil para alcançar o sucesso. Hoje já se trabalha bem em quase todo o lado. Para se fazer um jogador de topo, dezenas de jovens viram as suas vidas frustradas pela aposta «cega» no desporto. Reflitam sobre isso.
Os dirigentes e treinadores têm também um papel decisivo, pois muitas vezes estão unicamente centrados no treino «profissional» e nos resultados, ignorando os aspetos principais da iniciação da prática desportiva: valorização das atitudes, ética e fair-play.
Quer as crianças ganhem ou percam, o importante é divertirem-se na competição, sendo o resultado uma mera indicação para o treinador avaliar, internamente, a evolução dos seus atletas.
Não se deve NUNCA esquecer que as crianças não são profissionais em miniatura e os adultos não os devem crucificar, como não devem criar expectativas injustas sobre a sua evolução. O caminho é longo.
Mas assistir, apoiar, incentivar, aplaudir as nossas crianças e os nossos jovens nas competições desportivas é, ainda, a melhor forma de relaxarmos e de contribuirmos para uma geração de jovens saudáveis.
Votos de uma excelente época desportiva para todos vós.


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

(NOVO) ESTATUTO DO ESTUDANTE ATLETA

A falta de expectativas e de tempo eram dois dos principais obstáculos à continuidade da prática desportiva pelos jovens. Estudos recentes demonstram que, na adolescência, os jovens deixam de praticar desporto federado por se sentirem já cansados e, muitos deles, por verem defraudadas as suas expectativas de uma possível carreira de atleta. No caso dos jovens do interior, a certeza de que, ao irem para o ensino superior, deixam de ter condições para jogar leva a que antecipem esse abandono por volta dos 15-16 anos.
Com a criação do estatuto do estudante atleta federado, abre-se uma nova expectativa para estes jovens. A importância do desporto na formação dos estudantes do ensino superior é reconhecida por todos. Os responsáveis pela oferta educativa nesse nível de ensino vão ter de ponderar e valorizar as componentes desportivas e culturais que disponibilizam aos estudantes.
A ausência de um estatuto que defendesse os estudantes atletas complicava, e muito, a conciliação do tempo de forma a não faltar a aulas para ir a treinos ou vice-versa.
O estatuto do estudante atleta vem acabar com esse “dilema” entre estudos e desporto. Era uma antiga reivindicação da Federação do Desporto Universitário e vai ajudar os estudantes que queiram conciliar os estudos do ensino superior com o desporto.
Na prática, esta aprovação representa um alargamento de um conjunto de condições favoráveis a que os estudantes possam conciliar a atividade académica com a atividade de praticante desportivo. Alguns dos benefícios incluem o direito a alterar a data de exames ou a permissão de faltas.
Ter-se-ão, sem dúvida, perdido atletas com potencial devido às dificuldades impostas pelos horários, exames, prazos de entrega de trabalhos… Tal como milhares de atletas não completaram as respetivas licenciaturas por terem colocado a evolução desportiva à frente de tudo o resto! Ora, num mundo ideal, as duas atividades devem ser paralelas e complementares.
«O Médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe.» Abel Salazar
Cabe agora às instituições e professores cumprir a legislação e não criar dificuldades a estes atletas. Através das instituições escolares, clubes, associações e entidades diversas, as regiões têm de disponibilizar uma oferta desportiva diversificada e de qualidade para serem competitivas.
A prática desportiva federada tem influência no desempenho profissional e que, de entre as competências adquiridas na prática desportiva, a liderança assume um papel fundamental. É certo que as competências adquiridas na prática desportiva federada, quando devidamente aplicadas em contexto laboral, são muito úteis e acrescentam valor.
O desporto pode ensinar: trabalho em equipa, força mental, objetivos partilhados, competir para resultados, plano de jogo, treino, comunicação, gestão do tempo, e avaliação de desempenho. A estas competências acrescente-se a mais importante: ética.
No momento de procurarem novos colaboradores, as empresas começam a prestar especial atenção ao curriculum desportivo, para além do académico e profissional.

«(…) o Desporto não é só uma atividade física é, sobre o mais, humana.» Manuel Sérgio.
O desporto estimula a paixão, a disciplina, a coragem, a liderança, a responsabilidade e a resiliência, como nenhuma outra atividade. Os estudantes que praticam desporto são melhores alunos e serão melhores trabalhadores e melhores seres humanos.

domingo, 7 de julho de 2019

VIII GALA DOS AFONSINHOS

Quando recebi o convite do Marcos Antunes para participar na VIII Gala da Escola de Futsal os Afonsinhos, São Martinho de Mouros, aceitei de imediato com enorme satisfação.
Receber uma distinção é uma honra e acresce uma enorme responsabilidade quando no leque dos distinguidos estão os campeões europeus Jorge Brás e Nuno Dias, a atleta Inês Fernandes, a Coach de Alta Performance Suzana Torres coach, o professor José Neto, a RTP, entre outros treinadores, aletas e dirigentes!
🙌
Estou sinceramente grato aos Afonsinhos. Parabéns pelo vosso percurso e os maiores sucessos para o futuro. Obrigado.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Táticas e modelos comportamentais!


Durante os 15 anos em que estive ligado ao desporto como treinador de crianças e jovens, foram muitos os episódios que me incentivaram a escrever sobre o comportamento dos adultos na prática desportiva.
Todos cometemos erros, e eu não sou exceção. Queria e quero sempre ganhar. Apaixonado pelo desporto, vivia tanto ou mais que muitos que estabulavam em cada jogo, sem que para isso precisasse de desrespeitar quem quer que fosse.
A verdade é que nunca foi preciso nenhum árbitro me admoestar e nunca fui injuriado por adversários por alguma atitude menos própria que realmente tenha adotado. A convivência com os pais nem sempre foi fácil. Muitas vezes a mensagem não lhes chegava da melhor forma e sentia-me incapaz de lhes transmitir que o que fazíamos era o que entendíamos ser o melhor para o filho.
As sextas-feiras, dia das convocatórias, eram um suplício. O telemóvel tocava quase em permanência.
O insucesso de alguns atletas em jogo só atrasa o seu processo de evolução. Os treinos são autênticas sessões de aprendizagem/evolução, mas não são encarados como tal. Entre um jogo em que o fracasso está presente e um treino em que o êxito é muito grande, os pais optam sempre pelo primeiro. Desvalorizar o treino é um dos grandes erros dos progenitores.


Partilho convosco alguns dos episódios que vivenciei e que ainda hoje não compreendo porque tiveram, têm e terão de ser assim.

1 – Jogava-se uma final de um campeonato distrital de futebol de 7, sub-13. A rivalidade entre as duas equipas é enorme e o ambiente, com o campo cheio de espetadores, de muita festa e adrenalina. Quando o árbitro apita para o fim do jogo é uma explosão de alegria pela vitória. Surpreendentemente, a mãe de um atleta meu invade o campo e dirigindo-se a mim, com o dedo indicador apontado ao meu rosto, diz-me:
– "Não volta a falar assim para o meu filho". Nem o título de campeão me livrou da descompostura.
(Os pais não percebem que a forma como comunicamos com os atletas depende da personalidade destes e de os conhecermos bem em competição.)

2 – Fase final de um campeonato distrital de juvenis. A competitividade estava no auge e eis que na véspera de um jogo, por volta da 1:30 h da noite de um sábado, um meu atleta envia um SMS a solicitar transporte para o jogo da manhã de domingo. A hora deste envio devia-se ao facto de ter adormecido cedo e se ter esquecido de enviar a mensagem. Pura mentira. Estava mesmo à minha frente na zona histórica da cidade, zona dos bares e de convívio noturno. A minha resposta foi:
– "Deixa-te estar onde estás, que acabas de ser desconvocado". Não pactuei com a mentira. Perdemos o jogo e o 1.º lugar. O jovem e a mãe pediram desculpa pelo sucedido e afirmaram que não voltava a acontecer. No final do jogo seguinte, um colega treinador do clube abordou-me e disse-me que o atleta em questão estava na mesma zona na noite anterior ao jogo. De nada valeu. Hoje sei que prejudiquei a equipa.
(Na formação não conseguimos corrigir comportamentos se os pais forem cúmplices nos desvios às regras pelas quais se deve reger um atleta.)

3 – Campeonato distrital de juniores. O jogo aproximava-se do fim e, na bancada, os pais andavam numa pancadaria que concentrava a atenção de todos. O jogo deixou de ser importante e os atletas e árbitros só olhavam para a bancada. O árbitro apitou para o final do jogo e só vi os jovens a correrem desenfreados para as bancadas em socorro dos pais. A gravidade da situação levou a que fôssemos aconselhados a recolher rapidamente aos balneários e lá ficássemos fechados. Quase duas horas encarcerados, com muitas pedras a caírem no telhado do balneário e gritos de ameaças. Por fim, a GNR chegou e escudou-nos até ao autocarro para que pudéssemos regressar. Momentos de terror autênticos.
(Campos/pavilhões complicados sempre existiram. No século XXI não se justificam estes comportamentos, porque na formação o público é constituído maioritariamente pelos familiares dos atletas, que devem dar o exemplo de bom comportamento e educação.)

4 – Campeonato distrital de juniores. O jogo decorria normalmente e a minha equipa vencia por 2-0 na situação de visitante. Numa saída de bola pela linha lateral, o atleta adversário fez o lançamento com outra bola que rapidamente apanhou. A primeira bola tinha ficado a meus pés. Quando a devolvi, rasteiramente, para o banco dos visitados, eis que sou surpreendido com a atitude patética do treinador adversário. De braços abertos e virado para a bancada, começou a dialogar com o público:
– "Já viram que estes gajos da cidade vêm para aqui gozar connosco?! A bola estorvava-lhe e teve de a enviar para aqui para me distrair". O meu espanto era total e fiz-lhe a sinalética de que ele era tolinho. No final do jogo, e já na zona do túnel, veio pedir-me desculpa pelo sucedido, dizendo que nada tinha contra mim, mas que, perante a derrota, "convém agradar aos pais com estas atitudes"!
(Muitos agentes desportivos, entre os quais treinadores, utilizam a manipulação dos pais e atletas para a sua agenda pessoal. Na escolha do perfil de treinador de formação deve constar o saber ser e estar.)

5 – Campeonato de sub-10. Era uma criança com uma paixão enorme pelo futebol e com potencial reconhecido por todos. Por norma, era a mãe que o levava aos treinos e jogos. No primeiro jogo a que foi assistir, o pai passou toda a primeira parte a dar indicações ao filho. Este estava quase imóvel e de semblante fechado. No intervalo, quando o abordei para saber porque estava ele triste e parado, respondeu-me:
– "Mister, o meu pai não se cala, está sempre a dizer o que devo fazer ou não. Não consigo jogar assim". Falei com ele, dizendo para tentar abstrair-se e decidir por ele. No final, conversei com o pai, que se mostrou estupefacto por ter causado esse efeito, já que era precisamente o contrário do que ele pretendia. Pediu desculpa e assim foi: nunca mais deu indicações e passou a concentrar-se no apoio à equipa.
(Devemos abordar educadamente os pais e transmitir-lhes que quando estão a dar instruções ao filho, da lateral, estão a distraí-lo e a criar nele uma grande confusão.)

6 – Campeonato Nacional de Iniciados. A época começava e, nos dois primeiros jogos, a equipa não tinha ainda tido o desempenho esperado por muitos pais. Depois da segunda derrota, leio a crónica do jogo num Jornal Regional. O "jornalista" comentava o meu trabalho de uma forma tendenciosa, mandando autênticos recados. Procurei quem tinha assinado o texto para lhe dizer que não aceitava aquele tipo de recados. O autor do texto e quem assinara não eram a mesma pessoa. O texto, que eu fiz questão de partilhar no meu Facebook, tinha sido escrito pelo pai de um atleta (o que para mim já não era propriamente novidade), a fazer de treinador com preferência para que o filho jogasse.
(Os pais são muito importantes no acompanhamento dos filhos na prática desportiva. Podem colaborar em várias atividades do clube como transportes, angariação de fundos, logística, mas NUNCA na área técnica.)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Ética no desporto e na vida

Nos dias de hoje em que o homem cada vez mais se vê confrontado com situações que poem em causa os seus valores, torna-se pertinente discutir em todas as suas atividades as questões éticas. O desporto, como não podia deixar de ser, não escapa a esta realidade, quer seja através de atos isolados ou da própria configuração organizacional.


Os líderes das grandes organizações desportivas, como por exemplo o Comité Olímpico Internacional e a FIFA, foram acusados de atos de corrupção e favorecimentos em troca de benesses. Quando os homens que ocupam os cargos de gestão são suspeitos de corrupção, pode-se ter a certeza que a própria atividade tem falta de moralidade e que os seus agentes não têm uma vivência ética. No entanto reconheça-se que estas pessoas não surgem do nada – fazem parte de um «aparelho» que os conduziu a estes lugares. Quando assim é, torna-se difícil a aplicação da ética no desporto. Mas não se pode desistir de o consagrar.
Na verdade é consabido, que não existe desporto sem ética – será sempre outra coisa, mas não desporto. Assim, deve-se questionar sobre as vantagens efectivas dum desporto praticado e gerido com ética. E estas são relevantes para todos. O desporto que é também uma atividade económica de relevo, só pode obter benefícios com a criação e implementação de mecanismos de transparência nas suas decisões. Os princípios de ética são transversais a todos os agentes do desporto: praticantes, treinadores, árbitros, dirigentes, jornalistas, pais, empresários, espetadores, massagistas/médicos e entidades desportivas.
No desporto os melhores saem mais vezes vencedores. O espetáculo desportivo é melhor e mais atrativo, se houver verdade desportiva e o público manifestar confiança nos resultados. Os patrocinadores aumentam quando acreditam que não há viciação nos resultados, uma vez que, as grandes empresas conhecem as vantagens de se aliarem ao desporto. O adepto vai ao espetáculo se puder ser acompanhado pelos seus e viver o jogo pelo jogo, torcendo obviamente pelo seu atleta, pela sua equipa. A comunicação social vende mais porque a atividade mobiliza mais público e desperta interesse. A TV paga mais pelos direitos, quando o espetáculo é de qualidade. Os políticos são bem-sucedidos ao proporcionarem uma vivência desportiva, em todas as suas vertentes aos seus concidadãos.

A educação para a ética deve iniciar-se no 1.º ciclo escolar e depois no clube com a transmissão de valores éticos. A formação do jovem atleta deve ter sempre em conta a construção da sua personalidade, onde a preocupação com os princípios éticos é fundamental. Escusado será dizer que, o que o jovem aprende do comportamento ético no desporto, deve ser primeiro praticado. Aqui é grande a responsabilidade de treinadores, dirigentes, familiares e público em geral.
É através do seu próprio comportamento que fazem com que o jovem se lembre dele para toda a vida. A relação (treinador/dirigente/adepto com o jovem atleta) pedagógica é uma função ética e deontológica que tem de ser assumida por todos os agentes envolvidos na formação desportiva.
As verdadeiras questões éticas devem assumir uma relevância decisiva no desporto. Os valores que transmitimos na formação desportiva às crianças e jovens são transpostos para a vida.
A legislação deve assegurar o comprometimento de toda a verdade desportiva. Os praticantes profissionais devem respeitar as regras do jogo e da competição, evitando a teatralidade com intuito de alterar a verdade desportiva. Os pais devem ter uma relação correta e cooperante com todos os outros agentes que intervêm no processo de formação do filho. Os treinadores devem ser o exemplo impoluto de que a qualidade e o trabalho, são as únicas ferramentas para se ser melhor e vencer mais vezes. Os clubes, dirigentes, árbitros, empresários devem proporcionar condições de uma prática/competição desportiva séria e verdadeira.
O tratamento que inúmeros Meios de Comunicação Social (com maiúsculas!) dão ao desporto, fomenta a guerrilha e o ódio, premiando o «chico-espertismo». O que temos vindo assistir chega a ser repugnante. Alterar mentalidades para o exercício de condutas mais éticas leva tempo, e esse trabalho já devia estar a ser realizado, para assim criarmos adeptos mais exigentes e com o mínimo de … bom gosto! A falta de ética no desporto é uma prática que corrói, e vai acabar por destruí-lo no que tem de mais importante para oferecer: competição, amizade e cooperação.
Quando agimos no interesse dos outros, o nosso comportamento em relação a eles é inevitavelmente positivo. O contrário também se aplica.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"Faz o que eu digo, não faças o que eu faço" já era


A participação dos jovens no desporto é um tema frequente, existindo, no entanto, um desfasamento entre o que se diz ou escreve e os atos praticados por todos os agentes envolvidos.
Vivemos, cada vez mais, num mundo globalizado, em que a mediatização do desporto profissional ajuda a criar expetativas e transmite uma imagem de que só a vitória e o ser campeão é valorizado. Os insucessos são sempre referidos como incompetência e servem para chacota. As redes sociais são eco de clubites exacerbadas e de falta de cultura desportiva, mesmo por quem tem prática desportiva. Agentes desportivos excedem-se quando a discussão incide sobre o seu clube, sobretudo se for um dos denominados "3 grandes". Treinadores, atletas e dirigentes tomam como suas as dores dos clubes de Lisboa e Porto, sem se aperceberem do ridículo em que caiem.
Não existem pessoas boas que no desporto são más. Existem pessoas que não sabem comportar-se. Ponto. Não vale de nada estar sempre com a retórica de que "até é boa pessoa, mas no desporto transtorna-se". Não sabe estar no desporto. A emoção e a paixão que o desporto provoca não servem de desculpa para nada. Quem mata a companheira, também o faz por amor?!!!
É neste ambiente que a formação se desenvolve. É o exemplo que se transmite. Do futebol das redes sociais e dos paineileiros para os campos não existe filtragem.
Daí, também, serem normalmente os pais que vivem os jogos como se fossem eles que estivessem a jogar os que tendencialmente insultam os árbitros, sejam eles árbitros adultos ou, mais absurdo ainda, jovens que estão a iniciar a atividade. Em casa repreendem os filhos quando dizem asneiras e não permitem que se insultem pessoas, mas quando estão no jogo os princípios de educação enunciados em casa desaparecem.
A pergunta da criança é, "mas afinal dizem-se ou não se dizem asneiras?! Insultam-se ou não se insultam pessoas?" Nada é mais educativo que os exemplos, e não é com maus exemplos que melhor educam. Se acreditamos que o desporto para os mais jovens é um processo educativo e formativo, todos devemos contribuir para essa finalidade, a começar pelos pais.
É necessário aprender a conviver com esta realidade: todos somos potenciais desestabilizadores, mas, com valores humanos e uma educação adequada e atempada, podemos enfrentar a situação com êxito e fazer com que esta sucessão de problemas tenha um impacto mínimo.
"Faz o que eu digo, não faças o que eu faço" é um ditado popular que não serve de modelo de transmissão de valores para os filhos, pois o exemplo é o que se apreende e marca.
As crianças apreendem com maior frequência aquilo que vivenciam do que aquilo que lhes é dito. Se forem constantemente confrontadas com maus exemplos, vão acabar por tomá-los como bons, pois é a realidade em que se encontram.
Os pais devem transmitir aos filhos que estes têm de dar o melhor de si mesmos para superar os obstáculos e não esperar que o adversário fraqueje ou que ocorra uma influência externa. O objetivo pode ser vencer, mas todos temos de ser melhores, de evoluir diariamente.
A criança/jovem tem direito, tem mesmo a necessidade, de sonhar. O crescimento implica várias fases. O sonho está, e deve estar, sempre presente no seu desenvolvimento. O sonho começa a traçar um caminho, estimula a criatividade e abre novos horizontes.
Uma meta que possa não ser alcançada não é definitivamente um fracasso. Nem sempre somos os melhores. O campeão não é o que não cai, mas sim o que se levanta a seguir à queda.

Desenho de Paulo Medeiros

Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar...