O futebol de rua não era romântico.
Na verdade, eu diria exatamente o contrário.
Jogava-se sobre pedras de granito, entre carros estacionados, bicicletas, árvores e pessoas que passavam, algumas delas já sem grande paciência para aquela confusão.
De vez em quando, aparecia a polícia.
Era sinal de correr.
Parávamos durante uns minutos e, pouco depois, o jogo recomeçava.
Ninguém tinha uma bola nova.
Ninguém tinha equipamento.
Ninguém precisava de marcar presença numa aplicação.
Mas todos sabiam onde aparecer.
E isso bastava.
Não era um futebol melhor do que o de hoje.
Era simplesmente o nosso futebol.
E ensinou-nos a jogar antes de alguém nos ensinar as regras.
Havia público.
E quando havia público, o jogo ficava mais sério.
Não precisávamos de um adulto a dizer-nos constantemente onde estar, o que fazer, quando passar ou como resolver cada problema.
O jogo era nosso. Nós organizávamo-nos. Tomávamos decisões. Errávamos. Discutíamos. Fazíamos as pazes. Voltávamos a jogar. Nem sempre era pacífico.
Havia discussões, claro. Mas eram nossas.
Entre amigos que se conheciam há anos e que sabiam que, no dia seguinte, aquilo já seria passado.
Hoje éramos adversários. Amanhã, estávamos na mesma equipa.
E havia ainda aquela cumplicidade tão própria da infância.
Quem aparecia para jogar às escondidas dos pais porque estava adoentado ou porque não queria estragar os sapatos encontrava, muitas vezes, a proteção de todo o grupo.
Era a nossa pequena conspiração. Era amizade.
Hoje, o desporto de formação é diferente.
Temos melhores condições, melhores instalações, treinadores preparados, conhecimento científico e oportunidades que nós não tínhamos.
E ainda bem.
Não precisamos de voltar atrás.
Mas talvez possamos recuperar uma coisa que o tempo não devia ter levado:
o espaço para jogar.
O espaço para decidir. O espaço para errar. O espaço para resolver conflitos.
O espaço para criar. O espaço para ser criança, jovem, atleta — e pessoa.
Porque antes de ensinar uma criança a executar melhor um gesto técnico, talvez devêssemos perguntar:
estamos também a dar-lhe espaço para aprender a jogar?
No futebol, no futsal, no basquetebol, no andebol, no voleibol, na natação, na ginástica, no atletismo ou em qualquer outra modalidade, há aprendizagens que nenhum exercício consegue substituir.
Há coisas que se aprendem a jogar com os outros.
E algumas delas ficam para a vida.
Educar também é saber quando orientar.
E quando deixar jogar.
Vitor Santos | Educar o sonho
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