Se uma criança vai duas ou três vezes por semana treinar, o verdadeiro impacto pode estar muito para além dos minutos passados dentro do pavilhão, campo, piscina ou pista.
Uma nova época desportiva está a começar. Campos, pavilhões,
piscinas e pistas voltam a encher-se de crianças e jovens. E, com eles,
regressam os sonhos, as expectativas e, algumas vezes, também a pressão.
Um estudo realizado no âmbito do projeto ATIVA+Saúde,
envolvendo 549 crianças dos 9 aos 13 anos, encontrou uma associação entre a
prática desportiva fora da escola e hábitos de vida mais saudáveis. Entre os
aspetos analisados estão a alimentação, o sono, a atividade física, a
utilização de ecrãs e a literacia em saúde.
Os dados são relevantes. Mas, mais do que olhar para o
desporto como uma solução automática para todos estes problemas, devemos
perceber o que ele pode representar na formação de uma criança.
Porque o desporto não acontece apenas durante o treino ou no
momento da competição.
Pode ensinar a criar rotinas, a cuidar do corpo, a respeitar
o descanso, a organizar o tempo, a assumir responsabilidades e a relacionar-se
com os outros. Pode ensinar a ganhar, mas também — e talvez sobretudo — a
perder.
É aqui que devemos colocar uma questão: estamos a formar
atletas ou estamos a formar pessoas através do desporto?
A resposta não está apenas nas mãos dos treinadores. Está
também nas famílias, nos clubes, nas escolas e em todos os adultos que
acompanham uma criança no seu percurso desportivo.
O risco está em transformar cada hábito saudável numa nova obrigação e cada treino numa oportunidade para exigir mais. Uma criança não precisa de ser um atleta perfeito. Precisa de adultos que a ajudem a compreender, progressivamente, como pode cuidar de si e dos outros.
Também por isso, os números que mostram que cerca de quatro
em cada dez crianças avaliadas não praticam desporto fora da escola devem
merecer a nossa atenção. Antes de perguntarmos qual a modalidade que
escolheram, deveríamos perguntar: o que está a impedir tantas crianças de
praticar desporto?
Custos? Transportes? Horários? Falta de oferta? Exigência
excessiva? Pressão? Falta de motivação?
O direito ao desporto não pode significar apenas garantir
que existem clubes. Significa criar condições para que cada criança possa
encontrar no desporto um lugar onde queira estar, aprender e crescer.
O marcador é importante. Faz parte da competição.
Mas um dia o jogo acaba, o resultado deixa de ter
importância e a época termina.
Aquilo que fica é o que a criança aprendeu. Talvez esse seja
o verdadeiro resultado do desporto de formação.
Formar pessoas antes de formar atletas.
Vitor Santos
(Embaixador do Plano
Nacional de Ética no Desporto)
Fonte:
Projeto ATIVA+Saúde — Universidade de Leiria e Oeste, ciTechCare, em parceria
com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa e a
Câmara Municipal de Leiria.
Dados divulgados pelo Jornal de Leiria, 3 de setembro de 2026.
