Há uma mudança implementada pela Federação Alemã de Futebol, desde a temporada 2024/25, que merece muito mais do que uma simples notícia sobre novos formatos de jogo.
Merece reflexão.Porque a Alemanha percebeu que havia qualquer coisa no futebol de formação que precisava de ser repensada.
Nos escalões mais jovens, estava-se a dar demasiado espaço à organização táctica, ao resultado, às posições e à lógica competitiva dos adultos.
E quando isso acontece demasiado cedo, há um risco:
começamos a formar jogadores antes de lhes darmos tempo para serem crianças a jogar.
O próprio DFB reconhece que, no futebol infantil, a preocupação precoce com a táctica estava a prejudicar o desenvolvimento das bases futebolísticas. E reconhece também que, nos formatos tradicionais, crianças menos fortes ou fisicamente menos desenvolvidas podiam acabar por participar menos, tocar menos na bola e perder oportunidades de evolução.
Foi nesse contexto que a Alemanha avançou com uma profunda alteração dos formatos de competição dos escalões mais jovens.
Mais jogadores envolvidos. Mais bola. Mais decisões. Mais situações de 1x1.
Mais golos. Mais experiências. Mais liberdade.
E, sobretudo, menos espaço para que o adulto controle permanentemente aquilo que a criança deve fazer.
Não é apenas uma alteração de regras.
É uma alteração de filosofia.
Porque uma criança que passa demasiado cedo a jogar numa posição fixa, a cumprir uma função específica, a responder permanentemente a instruções e a ser avaliada pelo resultado pode tornar-se muito competente a cumprir.
Mas isso não significa necessariamente que esteja a aprender a jogar.
E aqui está uma questão que deveríamos colocar também em Portugal:
Será que, na nossa procura por formar atletas, estamos por vezes a limitar aquilo que os poderia tornar diferentes?
A criatividade não se programa.
A tomada de decisão não se ensaia sempre da mesma maneira.
A capacidade de resolver problemas não nasce de receber permanentemente soluções dos adultos.
Desenvolve-se quando a criança tem problemas para resolver.
Quando experimenta. Quando arrisca. Quando falha. Quando tenta outra vez.
Quando descobre que existem várias respostas possíveis para a mesma situação.
É por isso que a especialização precoce merece tanta atenção.
Não porque especializar seja necessariamente errado.
Mas porque especializar demasiado cedo pode significar fechar portas antes de a criança ter descoberto todas as suas possibilidades.
E talvez seja aqui que a experiência alemã nos deixa uma das maiores lições:
não devemos ter tanta pressa em transformar crianças em atletas.
Primeiro, deixemo-las ser crianças. Deixemo-las jogar.
Deixemo-las experimentar diferentes posições. Deixemo-las descobrir aquilo de que gostam. Deixemo-las errar. Deixemo-las decidir.
Deixemo-las desenvolver competências antes de lhes exigirmos especialização.
Porque um jogador não se desenvolve apenas quando recebe a instrução certa.
Desenvolve-se também quando encontra a solução sozinho.
E talvez seja precisamente isso que a nova filosofia alemã procura recuperar:
o jogador que pensa, em vez do jogador que apenas executa.
A questão, no fundo, não é saber se devemos copiar a Alemanha.
É muito mais incómoda:
Se eles sentiram necessidade de mudar porque determinadas formas de formação estavam a limitar o desenvolvimento das crianças, será que nós já fizemos a mesma pergunta sobre o nosso próprio modelo?
Porque, no desporto de formação, formar não pode significar formatar.
E quando formatamos demasiado cedo, podemos correr o risco de fazer desaparecer precisamente aquilo que procurávamos encontrar:
um atleta criativo, autónomo, apaixonado e capaz de pensar por si.
Educar o Sonho é também isto: não ter pressa de formar o atleta que imaginamos, quando ainda estamos a descobrir a pessoa que ele pode vir a ser.
Vitor Santos | Educar o sonho
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