A MONTANHA É ALTA. MAS NÃO É IMPOSSÍVEL SUBI-LA.
Há uma montanha no futebol de formação.
É alta.
É exigente.
E, à medida que nos aproximamos do topo, torna-se cada vez mais estreita.
Mas há uma coisa que precisamos de dizer, sobretudo às
crianças e aos jovens:
é possível chegar lá.
Ser futebolista profissional não é um sonho impossível.
O problema está em transformar essa possibilidade numa
promessa.
Os números ajudam-nos a perceber a dimensão do desafio.
Segundo os dados apresentados no trabalho Promessas do
Futebol, de Rui Passos Coelho, existem cerca de 180 mil jogadores
portugueses do sexo masculino no ativo. Desses, cerca de 140 mil têm 18
anos ou menos.
Quando olhamos para os escalões superiores, o funil começa a
apertar.
Na época 2025/2026, apenas 323 jogadores portugueses
estavam nas duas principais ligas nacionais, de acordo com os dados referidos
no trabalho.
E, num universo de cerca de 180 mil jogadores, apenas 431
são ou foram internacionais por Portugal, considerando os diferentes
escalões das seleções nacionais.
São números que impressionam.
Mas não devem servir para matar sonhos.
Devem servir para os colocar no lugar certo.
Porque há uma diferença enorme entre dizer a uma criança:
“Vais ser jogador profissional.”
e dizer-lhe:
“Trabalha, desfruta, aprende e dá o teu melhor. Quem sabe
onde podes chegar.”
A primeira frase promete um destino que ninguém pode
garantir.
A segunda abre uma possibilidade.
E é nessa diferença que está uma parte importante da
educação desportiva.
O problema não é sonhar alto.
O problema é fazer uma criança acreditar que o sonho é um
direito adquirido.
Que basta estar numa academia.
Que basta ser convocada para uma seleção jovem.
Que basta ser considerada “talento”.
Que basta jogar num clube grande.
Nada disso garante o topo.
Aliás, os próprios números mostram que muitos dos que chegam
a determinados patamares de formação não chegam à elite sénior.
E isso não significa necessariamente que tenham falhado.
Significa que o futebol profissional tem poucas portas
para muitos candidatos.
É uma questão de talento, trabalho, oportunidade, contexto,
desenvolvimento, características físicas, decisões, lesões, momentos,
treinadores, clubes, concorrência e, também, circunstâncias que ninguém
controla.
É por isso que uma criança não pode ser educada para
acreditar que o seu valor depende de chegar ao futebol profissional.
Mas atenção: o funil apertado não significa que ninguém
consiga passar.
Muito pelo contrário.
Há quem passe.
Há quem chegue.
Há quem construa uma carreira extraordinária.
Há quem percorra caminhos que ninguém previa.
E é precisamente por existirem esses casos que não
podemos dizer a uma criança que o sonho é impossível.
Podemos, isso sim, dizer-lhe que é difícil.
Muito difícil.
Que os últimos metros da montanha são particularmente
exigentes.
Que provavelmente encontrará colegas que deixarão de jogar.
Que poderá ser dispensado.
Que poderá mudar de clube.
Que poderá passar por momentos em que duvidará de si
próprio.
E que chegar ao futebol sénior não significa necessariamente
chegar à primeira liga, a uma seleção ou aos grandes palcos.
Mas também podemos dizer-lhe: continua.
Continua enquanto gostares.
Continua enquanto estiveres a aprender.
Continua enquanto o caminho fizer sentido para ti.
Porque o sonho também educa.
O futebol pode ensinar uma criança a lidar com a frustração,
com a espera, com a derrota, com a concorrência, com a responsabilidade e com a
necessidade de voltar a tentar.
E pode ensinar-lhe uma coisa ainda mais importante:
o resultado final não é a única medida do caminho
percorrido.
Um jovem pode não chegar ao futebol profissional e ter tido
uma extraordinária experiência desportiva.
Pode não chegar à primeira liga e tornar-se um adulto mais
disciplinado, mais resiliente, mais responsável e mais capaz de trabalhar em
equipa.
Pode deixar o futebol aos 16, 18 ou 22 anos e levar consigo
aprendizagens que ficarão para toda a vida.
Por isso, educar o sonho não é dizer às crianças para
sonharem menos.
É ajudá-las a sonhar sem lhes vender certezas.
É permitir que apontem para o topo da montanha, mas
ensiná-las a olhar também para o caminho.
É dizer:
“Sim, podes tentar.”
Sem dizer:
“Sim, vais conseguir.”
Porque ninguém sabe.
E talvez esta seja uma das maiores responsabilidades dos
adultos.
Pais, mães, treinadores, dirigentes e clubes não devem ser
os donos do sonho de uma criança.
Devem ser os seus acompanhantes.
Não devemos carregar uma criança montanha acima.
Devemos ajudá-la a caminhar.
E, sobretudo, não devemos fazê-la acreditar que, se não
chegar ao topo, fracassou.
O futebol profissional é uma possibilidade.
Não é uma promessa.
O sonho é legítimo.
A ambição também.
Os números devem ensinar-nos a ter consciência da dimensão
da montanha — não a proibir ninguém de tentar subi-la.
Porque há crianças que chegarão.
Outras ficarão pelo caminho.
E muitas descobrirão que o seu caminho era outro.
Mas enquanto houver paixão, trabalho, prazer e vontade de
aprender, há sempre uma razão para continuar.
A montanha é alta.
O funil é apertado.
Os últimos metros são difíceis.
Mas não são impossíveis.
E talvez seja exatamente isso que significa Educar o
Sonho.
Não prometer o topo.
Não impedir a subida.
Ensinar a caminhar.
— Vitor Santos | Educar o sonho
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