segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

𝐀 𝐇𝐢𝐬𝐭ó𝐫𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐀𝐧𝐭ó𝐧𝐢𝐨

 Eu sou o António.

E esta é a história que nunca aparece nas capas das revistas.
A história que muitos vivem… mas poucos têm coragem de contar.
Aos 5 anos, eu era só um miúdo feliz a correr atrás de uma bola.
E era tão simples ser feliz nessa altura.
Jogava porque adorava.
Sorria porque o jogo me fazia voar.
Mas os elogios começaram a chegar.
E com eles, vieram expectativas que eu nunca tinha pedido.
“𝐎 𝐫𝐚𝐩𝐚𝐳 𝐭𝐞𝐦 𝐮𝐦 𝐭𝐨𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐚𝐧𝐭á𝐬𝐭𝐢𝐜𝐨.”
De repente, já não era apenas o António.
Era o talento, a promessa, o que ia chegar longe.
Aos 8 anos estava na equipa do bairro.
Antes dos 10, num clube.
Ofereceram-me chuteiras de 200 euros - e eu senti-me o rei do mundo.
Mas ninguém me disse que o mundo dos crescidos tem um peso que os ombros de uma criança não conseguem segurar.
Com 13 anos, o futebol deixou de ser brincadeira.
Deixou de ser meu.
Começou a ser dos outros.
Do treinador que queria que eu fosse Ronaldo e Messi ao mesmo tempo.
Dos pais que sonhavam por mim.
Dos olhares que exigiam, cobravam, mediam.
Aos 15, já eu carregava noites mal dormidas, ansiedade na barriga e um silêncio que gritava por dentro.
Deixei de sorrir nos treinos.
Deixei de ser leve.
Deixei de ser eu.
O rendimento caiu… claro que caiu.
E quando caí, ninguém me amparou.
De titular a suplente.
De suplente a esquecido.
E, no meio disto, vi a desilusão nos olhos dos meus pais.
Talvez tenha doído mais do que qualquer derrota.
Aos 18, disseram-me que eu não tinha evoluído como esperavam.
E, no final da época, dispensaram-me.
Eu devia ter chorado.
Mas não chorei.
Porque, no fundo, eu já estava cansado de tentar ser o que nunca me deixaram descobrir se eu queria ser.
O que senti?
Alívio.
Um alívio que ninguém percebeu.
Como se, finalmente, me tivessem tirado um peso que nunca foi meu.
E percebi algo que demorou anos a aceitar:
No meio de tudo isto, todos se esqueceram de que eu só queria ser feliz.
Os meus pais esqueceram-se.
Os treinadores esqueceram-se.
A agência esqueceu-se.
E eu… eu também me esqueci.
Poderia ter sido um grande jogador? Talvez.
Mas hoje sei que isso já não importa.
Hoje… continuo a ser o António.
Mas, pela primeira vez, um António inteiro.
Um António que respira sem medo.
Um António que reaprende a sonhar - devagar, no seu ritmo, no seu tempo.
Porque educar o sonho não é empurrar alguém para um futuro que não pediu.
É ajudá-lo a encontrar o caminho que o faz feliz.
E eu… estou finalmente a encontrar o meu.

Vitor Santos | Educar o sonho

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