sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

“RESPEITO E CIVISMO SÃO OBRIGATÓRIOS!”

 VÍTOR SANTOS – AUTOR DE EDUCAR O SONHO

“RESPEITO E CIVISMO SÃO OBRIGATÓRIOS!”

 


Vitor Santos nasceu e viveu sempre em Viseu, cidade onde o desporto marcou profundamente o seu percurso pessoal e profissional. Fascinado desde cedo pelo universo desportivo, cresceu entre campos, pavilhões e bancadas, acompanhando de perto clubes emblemáticos da região como o Académico de Viseu, Viseu e Benfica, Lusitano ou Repeses. Praticou várias modalidades - futebol no BUB e no Viseu e Benfica, andebol no Académico e voleibol na Associação Académica de Viseu - fazendo dos fins de semana uma combinação constante entre jogar e ver desporto.

Apesar de o sonho inicial de ser atleta profissional ter perdido força ao longo do caminho, o desporto nunca deixou de o acompanhar. Em 1999 regressou ao Académico de Viseu como treinador, função que desempenhou durante 15 anos na formação, incluindo três passagens pelo Viseu e Benfica. Licenciado em Comunicação Social, dirigiu um semanário desportivo e aprofundou a sua intervenção no ecossistema desportivo regional. Foi vice-presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Viseu e é atualmente seu diretor.

Leciona na Escola Superior de Saúde do Instituto Piaget de Viseu a unidade curricular Ética no desporto.

Ao longo da última década, tornou-se uma das vozes mais influentes no debate sobre Ética no Desporto, somando distinções consecutivas entre 2016 e 2024 no prémio “Desporto com Ética”, entre primeiros lugares, menções honrosas e reconhecimentos pela originalidade e impacto dos seus textos. Em 2023 recebeu a distinção de Mérito da Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto e em 2025 a distinção de Mérito de Viseu, Cidade Europeia do Desporto / Município de Viseu.

Publicou, na revista FPF360 da Federação Portuguesa de Futebol, o estudo “A participação dos pais na atividade desportiva dos filhos” (2017), e tem sido convidado para inúmeras comunicações sobre este tema. Integra atualmente a Comissão de Ética dos Jogos Desportivos do Município de Viseu e foi membro efetivo do Observatório Municipal de Desporto.

Educar o Sonho, reforça a missão de promover valores, consciência e cultura desportiva, procurando contribuir para ambientes formativos mais saudáveis e humanos.

 



1. O que o levou, pessoalmente, a escrever Educar o Sonho?

O livro é o resultado natural de vários artigos na imprensa sobre ética no desporto e sobre comportamentos. Foi, acima de tudo, uma compilação ordenada, para leitura mais fácil.
Tenho muito orgulho no que está publicado.

2. O livro tem tido enorme procura. Que tipo de reações recebe?

As reações são fantásticas. Não teve o volume de vendas da 1.ª edição, mas também não era esse o objetivo. Quem lê diz: “todos deviam ler”. Melhor referência é impossível.

Surpreendeu-o algo?
Sim: atualmente são as mães quem adquire o livro em muito maior percentagem. Elas também são as mais presentes e sensíveis aos temas da ética.

3. Os comportamentos dos adultos podem afastar crianças do desporto?

Sem a menor dúvida.
Hoje uma criança começa no clube muito cedo e, aos 15/16 anos, já tem quase dez anos de prática organizada. Já lhe foram feitas muitas promessas, criou expetativas, e nessa idade percebe que aquilo que lhe foi dado como certo… não era bem assim.
O cansaço acumula-se. E a campeonite também.

Há números?
Por volta dos 15 anos, o abandono da prática desportiva federada situa-se nos 75%. Basta olhar para a pirâmide: a diferença entre a base e o meio é enorme.

4. Como reage quando vê um adulto a desrespeitar árbitros, treinadores ou jovens atletas?

Irrita-me bastante.
Não consigo lidar com tanta violência, desrespeito, falta de educação e civismo - sobretudo vindo de quem nem percebe o mal que está a fazer aos miúdos.
Insulta-se com a maior das facilidades.

Ainda se emociona ou já se distanciou?
Distanciei. Bastante mesmo.

5. O seu trabalho mudou comportamentos? Ou ainda há resistência?

Sim, mudou. Ainda esta semana recebi uma mensagem de um pai a dizer que alterou o seu comportamento por causa do meu trabalho. É uma só pessoa? Sim. Mas já valeu a pena.

E resistência?
Muita.
Em muitas ações, os pais nem aparecem. Não querem refletir sobre o seu comportamento e disparam contra o treinador.
Mas o comportamento do outro não iliba o nosso.

6. As redes sociais amplificam comportamentos tóxicos?

Sim. Mas são sobretudo usadas para promover o ódio entre adeptos dos principais clubes de Lisboa e Porto.
Nesta área, muitas pessoas que conheço são uma desilusão. Não as consigo perceber — nem quero.

Como vê o fenómeno?
Quando são os próprios agentes desportivos profissionais a pôr em causa a competição?!
Não há muito a fazer com adeptos que consomem tudo sem pensar. Hoje é tudo fast food.

7. Os clubes têm responsabilidades claras neste tema? O que ainda falta fazer?

Os principais clubes promovem o ódio e descredibilizam a atividade.
Como se paga para ver um espetáculo desportivo quando um presidente diz que a competição está viciada? Ou quando um treinador diz que foi a sua equipa que ganhou… mesmo quando não foi?

Na formação, o que falta?
Investir no comportamento. Trabalhar valores nos treinos.
É na iniciação que se formam atletas leais, verdadeiros e honestos. Depois, o “transfer” para a competição é automático.

8. E os treinadores? Estão preparados para lidar com pais, emoções e conflitos?

Têm o papel de trabalhar valores.
Há uma grande lacuna: expressões simples como “desculpa”, “obrigado” ou “fui eu” revelam educação, e faltam.

Sobre emoções?
Não é fácil para eles. Os clubes também têm de estar preparados.
É preciso investir no comportamento desde o início e explicar aos pais que entram numa dinâmica exigente, emotiva e que alterará a rotina familiar.

9. O que diria a um pai que acha que “está apenas a ajudar”, mas prejudica o filho?

Já me aconteceu.
Abordei o pai sem que o filho visse e disse-lhe que o comportamento dele estava a prejudicar o foco do jovem.
Foi recetivo, pediu desculpa  ao filho é que tem de pedir) e confessou: “Eu nem percebo nada de futebol… só queria ajudar!”

10. O livro tem forte componente pedagógica. Haverá materiais complementares?

Sim. O livro tem vários CR Codes de vídeos didáticos e impactantes.
Continuo a fazer ações e tenho vários documentos em andamento para ajudar pais, treinadores, dirigentes e atletas.

11. Futuro do Educar o Sonho?

Uma terceira edição e muita estrada.
Neste momento, reflito sobre a forma de o fazer, devido aos custos associados, que não posso suportar.

12. O que mais o emociona nos jovens atletas?

Trabalhar ética desportiva e valores do desporto com eles é excelente.
Eles reconhecem os valores, não são ingénuos, mas muitos desafios acabam por ser resolvidos da forma menos criativa, com medo de errar ou dececionar adultos.
O resultado condiciona-os. A tomada de decisão deveria ser incentivada.

13. Os pais são mesmo “o maior problema do desporto de formação”?

É mais complexo.
Os adultos, no geral, são o problema: dirigentes, treinadores e pais procuram resultados imediatos. Não pode ser assim.

14. Se pudesse colocar uma mensagem em todos os pavilhões e campos?

RESPEITO E CIVISMO SÃO OBRIGATÓRIOS!




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