VÍTOR SANTOS – AUTOR DE EDUCAR O SONHO
“RESPEITO E CIVISMO SÃO
OBRIGATÓRIOS!”
Vitor Santos nasceu e viveu
sempre em Viseu, cidade onde o desporto marcou profundamente o seu percurso
pessoal e profissional. Fascinado desde cedo pelo universo desportivo, cresceu
entre campos, pavilhões e bancadas, acompanhando de perto clubes emblemáticos
da região como o Académico de Viseu, Viseu e Benfica, Lusitano ou Repeses.
Praticou várias modalidades - futebol no BUB e no Viseu e Benfica, andebol no
Académico e voleibol na Associação Académica de Viseu - fazendo dos fins de
semana uma combinação constante entre jogar e ver desporto.
Apesar de o sonho inicial de ser
atleta profissional ter perdido força ao longo do caminho, o desporto nunca
deixou de o acompanhar. Em 1999 regressou ao Académico de Viseu como treinador,
função que desempenhou durante 15 anos na formação, incluindo três passagens
pelo Viseu e Benfica. Licenciado em Comunicação Social, dirigiu um semanário
desportivo e aprofundou a sua intervenção no ecossistema desportivo regional.
Foi vice-presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Viseu
e é atualmente seu diretor.
Leciona na Escola Superior de
Saúde do Instituto Piaget de Viseu a unidade curricular Ética no desporto.
Ao longo da última década,
tornou-se uma das vozes mais influentes no debate sobre Ética no Desporto,
somando distinções consecutivas entre 2016 e 2024 no prémio “Desporto com
Ética”, entre primeiros lugares, menções honrosas e reconhecimentos pela originalidade
e impacto dos seus textos. Em 2023 recebeu a distinção de Mérito da Autoridade
para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto e em 2025 a distinção de
Mérito de Viseu, Cidade Europeia do Desporto / Município de Viseu.
Publicou, na revista FPF360 da
Federação Portuguesa de Futebol, o estudo “A participação dos pais na atividade
desportiva dos filhos” (2017), e tem sido convidado para inúmeras comunicações
sobre este tema. Integra atualmente a Comissão de Ética dos Jogos Desportivos
do Município de Viseu e foi membro efetivo do Observatório Municipal de
Desporto.
Educar o Sonho, reforça a missão
de promover valores, consciência e cultura desportiva, procurando contribuir
para ambientes formativos mais saudáveis e humanos.
1. O que o levou, pessoalmente, a escrever Educar o
Sonho?
O livro é o resultado natural de vários artigos na
imprensa sobre ética no desporto e sobre comportamentos. Foi, acima de tudo,
uma compilação ordenada, para leitura mais fácil.
Tenho muito orgulho no que está publicado.
2. O livro tem tido enorme procura. Que tipo de reações
recebe?
As reações são fantásticas. Não teve o volume de vendas
da 1.ª edição, mas também não era esse o objetivo. Quem lê diz: “todos deviam
ler”. Melhor referência é impossível.
Surpreendeu-o algo?
Sim: atualmente são as mães quem adquire o livro em muito maior percentagem.
Elas também são as mais presentes e sensíveis aos temas da ética.
3. Os comportamentos dos adultos podem afastar crianças
do desporto?
Sem a menor dúvida.
Hoje uma criança começa no clube muito cedo e, aos 15/16 anos, já tem quase dez
anos de prática organizada. Já lhe foram feitas muitas promessas, criou
expetativas, e nessa idade percebe que aquilo que lhe foi dado como certo… não
era bem assim.
O cansaço acumula-se. E a campeonite também.
Há números?
Por volta dos 15 anos, o abandono da prática desportiva federada situa-se
nos 75%. Basta olhar para a pirâmide: a diferença entre a base e o meio é
enorme.
4. Como reage quando vê um adulto a desrespeitar
árbitros, treinadores ou jovens atletas?
Irrita-me bastante.
Não consigo lidar com tanta violência, desrespeito, falta de educação e civismo
- sobretudo vindo de quem nem percebe o mal que está a fazer aos miúdos.
Insulta-se com a maior das facilidades.
Ainda se emociona ou já se distanciou?
Distanciei. Bastante mesmo.
5. O seu trabalho mudou comportamentos? Ou ainda há
resistência?
Sim, mudou. Ainda esta semana recebi uma mensagem de um
pai a dizer que alterou o seu comportamento por causa do meu trabalho. É uma só
pessoa? Sim. Mas já valeu a pena.
E resistência?
Muita.
Em muitas ações, os pais nem aparecem. Não querem refletir sobre o seu comportamento
e disparam contra o treinador.
Mas o comportamento do outro não iliba o nosso.
6. As redes sociais amplificam comportamentos tóxicos?
Sim. Mas são sobretudo usadas para promover o ódio entre
adeptos dos principais clubes de Lisboa e Porto.
Nesta área, muitas pessoas que conheço são uma desilusão. Não as consigo
perceber — nem quero.
Como vê o fenómeno?
Quando são os próprios agentes desportivos profissionais a pôr em causa a
competição?!
Não há muito a fazer com adeptos que consomem tudo sem pensar. Hoje é tudo fast
food.
7. Os clubes têm responsabilidades claras neste tema? O
que ainda falta fazer?
Os principais clubes promovem o ódio e descredibilizam a
atividade.
Como se paga para ver um espetáculo desportivo quando um presidente diz que a
competição está viciada? Ou quando um treinador diz que foi a sua equipa que
ganhou… mesmo quando não foi?
Na formação, o que falta?
Investir no comportamento. Trabalhar valores nos treinos.
É na iniciação que se formam atletas leais, verdadeiros e honestos. Depois, o
“transfer” para a competição é automático.
8. E os treinadores? Estão preparados para lidar com
pais, emoções e conflitos?
Têm o papel de trabalhar valores.
Há uma grande lacuna: expressões simples como “desculpa”, “obrigado” ou “fui
eu” revelam educação, e faltam.
Sobre emoções?
Não é fácil para eles. Os clubes também têm de estar preparados.
É preciso investir no comportamento desde o início e explicar aos pais que
entram numa dinâmica exigente, emotiva e que alterará a rotina familiar.
9. O que diria a um pai que acha que “está apenas a
ajudar”, mas prejudica o filho?
Já me aconteceu.
Abordei o pai sem que o filho visse e disse-lhe que o comportamento dele estava
a prejudicar o foco do jovem.
Foi recetivo, pediu desculpa ao filho é
que tem de pedir) e confessou: “Eu nem percebo nada de futebol… só queria
ajudar!”
10. O livro tem forte componente pedagógica. Haverá
materiais complementares?
Sim. O livro tem vários CR Codes de vídeos didáticos e
impactantes.
Continuo a fazer ações e tenho vários documentos em andamento para ajudar pais,
treinadores, dirigentes e atletas.
11. Futuro do Educar o Sonho?
Uma terceira edição e muita estrada.
Neste momento, reflito sobre a forma de o fazer, devido aos custos associados,
que não posso suportar.
12. O que mais o emociona nos jovens atletas?
Trabalhar ética desportiva e valores do desporto com eles
é excelente.
Eles reconhecem os valores, não são ingénuos, mas muitos desafios acabam por
ser resolvidos da forma menos criativa, com medo de errar ou dececionar
adultos.
O resultado condiciona-os. A tomada de decisão deveria ser incentivada.
13. Os pais são mesmo “o maior problema do desporto de
formação”?
É mais complexo.
Os adultos, no geral, são o problema: dirigentes, treinadores e pais procuram
resultados imediatos. Não pode ser assim.
14. Se pudesse colocar uma mensagem em todos os pavilhões
e campos?
RESPEITO E CIVISMO SÃO OBRIGATÓRIOS!


