Sem ética, o desporto perde o seu propósito e a sua alma. A vitória deixa de ser conquista e passa a ser sobrevivência. A ética não é um acessório moral, é o que confere dignidade ao jogo e ao ser humano que o pratica.
A ética é, e continuará a ser, o alicerce da formação da Pessoa.
Falar de ética é falar de
escolhas conscientes. É questionar ações e comportamentos, ponderar intenções e
consequências. Não se trata de impor, mas de orientar, de despertar em cada um
o sentido de dever que nos aproxima da nossa melhor versão. A ética é discreta:
não se vê, não se mede, mas sente-se no gesto justo, na palavra equilibrada, na
atitude coerente.
No desporto, é ela que dá sentido
ao jogo, à competição e ao esforço. O valor do desporto não está apenas na
vitória, mas na forma como ela é alcançada. O desafio ético começa no treino e
prolonga-se muito para lá das quatro linhas. Os valores trabalham-se.
Ao longo dos anos de envolvimento
com o desporto, percebo que a ética, por mais invocada que seja, continua a ser
um terreno frágil. O discurso dos valores convive com a realidade dos
interesses, das pressões e dos egoísmos. Há momentos em que apelar à ética
parece quase irónico, tal é o contraste com o quotidiano competitivo.
Vivemos tempos em que a busca
pelo êxito imediato se sobrepõe à construção do caráter. Doping,
manipulação de resultados, violência, assédio, racismo, xenofobia e negócios,
que tratam o atleta como mercadoria, são sintomas de uma crise mais profunda: a
perda do sentido humano do desporto. Pergunto-me, por vezes, se o desporto de
hoje está mais corrompido do que o de outrora, ou apenas mais exposto. Talvez
sempre tenha havido abusos, mas agora o erro ganha palco e amplificação. É
nesse palco que a ética precisa de reafirmar a sua voz, mesmo quando parece
minoritária.
Hoje, o
desporto depara-se com novos desafios éticos que vão além das práticas
tradicionais: a legitimidade dos eSports enquanto modalidade desportiva,
as questões ligadas à identidade de género e a participação de atletas trans.
Não chega assumir uma posição simplista de estar "a favor" ou "contra".
O desporto é, por essência, uma
criação humana. Não basta o movimento do corpo – é a consciência e o sentido
que o tornam verdadeiramente humano. Tal como na vida, também aqui os valores
se aprendem: pelo exemplo, pelo diálogo, pela coerência entre o que se diz e o
que se faz. Infelizmente, a banalização do "vale tudo" ameaça
transformar o desporto num palco onde o fim justifica todos os meios. Mas
valerá tudo para vencer? Quando o "vale tudo" se instala, o desporto
perde a alma.
Precisamos de uma ética que
devolva dignidade ao desporto e o reconcilie com a sua vocação formativa. Precisamos
que o desporto permita ao atleta crescer como pessoa, explorando todas as suas
capacidades: físicas, cognitivas e humanas.
A ética no desporto não é um
acessório moral; é a substância que lhe dá sentido. É ela que protege o corpo e
a saúde, que preserva a dignidade e que garante o respeito entre todos os
agentes desportivos. Num tempo em que a sociedade vive ao ritmo da pressa e da
aparência, é urgente reafirmar a ética como bússola. Relembrar que nem tudo o
que é possível deve ser feito e que a vitória mais importante é a que não
compromete a integridade.
A ética reclama debate, reflexão
e coragem. Há que divulgá‑la por meio de ações de sensibilização. Porque, no
fim, a verdadeira vitória não é a que sobe ao pódio – é a que nos permite olhar
o outro, e a nós próprios, com dignidade.
