Ela não se tornou mais corajosa de repente.
A coragem não lhe caiu nos ombros como um manto novo,
nem lhe nasceu nos pés num amanhecer qualquer.
Dentro dela, tudo já estava, só faltava o mundo não apagar.
O que mudou foi o espaço.
Esse território invisível onde as crianças respiram
e onde os sonhos, por vezes, murcham antes de abrir.
De um lado, ela joga tensa, como quem pisa chão sagrado demais.
Antes de tocar na bola, olha para a linha lateral,
à procura de um sinal, de um aceno,
de uma autorização para existir em campo.
Carrega nos gestos a herança do “tem cuidado”,
a vigilância do “não estragues”,
e a marca silenciosa de ser menina num lugar
que nem sempre foi feito para ela.
Pais e treinadores, sem intenção, constroem muros
onde acreditam erguer proteção.
Chamam-lhe disciplina, chamam-lhe foco,
mas às vezes é apenas medo envolto em boa vontade.
Do outro lado, ela joga como quem dança.
O campo torna-se vasto, generoso,
e cada toque é um pedaço de sol a espalhar-se.
Ela vê o jogo antes de o jogo acontecer,
ouve a música secreta que só os verdadeiros curiosos escutam.
Arrisca porque ninguém lhe fecha as asas,
porque o erro deixou de ser sentença
e passou a ser mapa.
Aí entra o papel dos adultos.
O desenvolvimento não floresce no silêncio do medo,
mas no rumor tranquilo da confiança.
Começa quando o olhar de um treinador diz:
“Experimenta.”
Quando um pai ou uma mãe aprende a sorrir
no exato momento em que ela falha,
mostrando que a queda não rouba valor,
só oferece direção.
Se queremos jovens que decidem,
temos de lhes devolver o direito a pensar.
Se queremos meninas corajosas,
temos de lhes dar lugares onde a coragem
não seja uma armadura,
mas um sopro natural.
Porque a inteligência do jogo não nasce da pressão,
nem das expectativas desenhadas a régua.
Nasce no campo onde a curiosidade respira,
onde o erro ensina sem ferir,
onde o amor pelo jogo é maior
do que o resultado de um fim de semana.
E é aí, exatamente aí,
que uma menina atleta aprende que também ela
tem lugar, voz e caminho.
Desde que o mundo à sua volta
lhe dê espaço para crescer
em vez de a pedir para caber.
